O
Corpo
Negro

Um tempo espiralar. Em voltas pelo futuro-presente-passado, a programação do Sesc EntreDança na sua edição 2022 se (re)apresenta após um período no qual nos recolhemos, buscando proteger nossos corpos e nossas comunidades. Hoje, os mesmos curadores convidados e o mesmo conjunto de artistas que estariam no Rio de Janeiro em 2020 se encontram com este tempo que se dobra sobre si. A interrupção forçada há dois anos nos fez perguntar continuamente sobre a missão institucional e as nossas ações. A cada dia de novos desafios e impactos sofridos, somente permaneceu a certeza de que O corpo negro continuou sendo o mais atingido, o que teve menos alternativas e possibilidades diante da doença, das imposições do mundo do trabalho e das consequências da pandemia – ainda em curso.

Em sua quinta edição, o protagonismo das(os) artistas negras(os) na dança continua sendo o eixo central da ação, construído pelos saberes que portam os corpos dos seus sujeitos. Corpos com suas múltiplas postulações e dimensões, corpos em suas potências e marcas históricas, corpos e as suas transcriações – tomando as palavras da pesquisadora Leda Maria Martins, que tem presença confirmada no projeto neste ano. Cinco municípios do Estado do Rio de Janeiro recebem o projeto: Nova Friburgo, Nova Iguaçu, Paraty, Petrópolis e Rio de Janeiro acolhem as diversas programações, que também serão desenvolvidas no Polo Sociocultural do Sesc Paraty e no Centro Cultural do Polo Educacional Sesc, em parceria com o Departamento Nacional do Sesc. Com a contribuição dos curadores convidados Jorge Vasconcellos, Luciane Ramos-Silva e Taísa Machado – vozes que foram interlocutoras nesta jornada –, o Sesc oferece uma extensa programação entre 29 de abril e 15 de maio, buscando um panorama plural em termos estéticos e de suas narrativas. Artistas da Bahia, Ceará, Minas Gerais, Pernambuco, São Paulo e Rio de Janeiro apresentam 14 obras de dança em todo o estado e também participam de intercâmbios, oficinas e conversas com os públicos. Contamos ainda com a presença das universidades em uma jornada acadêmica com alunos e professores, além de seminários, exibição de filmes, dentre outras iniciativas. Trata-se de um percurso extenso pela tradição, pela pesquisa em dança, as suas intersecções e mesclas, a urbanidade e juventude, com experiências as mais variadas, afirmando os múltiplos lugares de fala que as(os) artistas apresentam.

A presença de mulheres e homens negra(os) atuando no setor do comércio de bens e serviços constitui parte significativa da nossa clientela preferencial no Rio de Janeiro, e é inegável a relevância da diáspora negra para o Sesc. Consequentemente, é incontornável a necessidade de produzir ações que favoreçam a reconstrução das distorções operadas pelas ferramentas da colonialidade, cuja força e métodos de atuação perduram até os dias de hoje, ancoradas no racismo estrutural. Conhecer a história dos nossos corpos e dos nossos gestos, as suas poéticas e saberes encarnados, pode permitir a todos ampliar os nossos vocabulários pessoais e compreender melhor as variadas formas de mover, criar e existir. Acreditamos que esse é um passo fundamental em direção à transformação e justiça sociais.

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