Transcrição de depoimento | Pak Djamena

Sobre

Este processo foi um pouco complexo, visto que trabalhei com um artista visual zimbabueano que reside em Cape Town, na África do Sul. Então, a convite de uma instituição suíça, a ProHelvetia, conseguimos um apoio em que eu fui lá à África do Sul, em Cape Town, fazer uma residência de duas semanas, que depois culminou com a primeira versão deste espetáculo. Na verdade, foi um espetáculo concebido para lugares alternativos, visto que nós estávamos num programa que era a Semana de Artes de Cape Town. Era uma semana em que os artistas tinham que intervir, era uma espécie de gentrificação, que era ocupar espaços vazios, espaços alternativos, como forma de prevalecer aquele espaço, como forma de demonstrar ao povo que aquele espaço tem uma história. Então, através da arte nós conseguimos ocupar esses espaços. Também, como essa peça – Influx – fala da questão das fronteiras geográficas, movimento das pessoas, os objetos que são vistos de uma forma num local, mas de uma outra forma num outro local, quando eles são transportados. Influx roda um pouco a questão do movimento, das fronteiras políticas e geográficas, dos objetos, da transformação, as ancestralidades e danças. Eu dei o exemplo, de outra vez, no encontro, de uma dança Nhau, que foi a base da criação desse espetáculo. É uma dança vista em Zimbabue, é vista também em Zâmbia, em Moçambique, e antigamente, nós, em África… aliás, até hoje, as pessoas dizem “África”, não dizem: Moçambique, não chamam o nome. Eles dizem “África”, porque as fronteiras foram recentemente compostas a nível político pelos colonos, que determinaram as fronteiras. Mas, antigamente não era assim, era tudo tipo… não havia aqui é Zimbabue ou Moçambique, era tudo isto. Esta dança [Nhau] é dançada nestes três países, tem a sua ancestralidade nesses países. Só nós conseguimos identificar a etnia de cada dança, de onde é que vem a proveniência. Mas, a dança é Nhau, e foi com base nessa dança que nós pensamos que ela agora tem fronteira, porque os países agora também têm fronteira. Mas, antigamente… Então foi esse conceito, na verdade, que primeiramente trouxe essa ideia de tradição e transformação. Trazer essa contemporaneidade… Porque eu sou jovem e outro artista também é jovem, e somos de uma geração de 86 até cá, então temos conhecimentos de base, mas não temos conhecimento de vida daquela altura. Temos conhecimento histórico, e foi com essa base que a gente criou este conceito para o contexto atual.

 

———————-

 

Eu não me considero um artista, vamos lá dizer, um artista moçambicano… aliás, sou moçambicano, mas não me considero um artista africano, me considero um artista do mundo. Porque eu colaboro com muitos artistas, europeus, africanos. Então, eu não me vejo muito nesse lugar da ancestralidade, porque isso já carrego comigo. O fato de eu ser africano, ser moçambicano… já carrego isso, né? A minha cor, a minha identidade, a minha proveniência, eu já carrego isso. Eu não tenho que insistir tanto, mostrar a tradição… eu penso que isso já está. Isso já está na minha forma de pensar, no lugar onde eu vivo, na minha inspiração e tudo isso. Agora, com relação ao artista brasileiro, eu conheço muitos artistas brasileiros que estiveram em Maputo – inclusive tenho lá um festival, que é o Festival Raiz, mas é da parte musical – em que está uma brasileira, uma estudante, ela vai fazer os estágios lá, e este ano vai voltar a fazer o estágio… então, pra mim, eu vejo uma relação muito forte. Embora que os negros brasileiros ainda insistem muito. Pude perceber, eu já estive em Salvador, Bahia. E essa questão do lugar do artista negro, há uma insistência. Enquanto nós, como moçambicanos, africanos, já não estamos aí. Nós agora estamos a ver as coisas no seu global, a coisa na sua posição natural, como pessoa. Eu penso que é uma relação muito forte em termos culturais, e eu acho que isso é interessante. Eu gostava, futuramente, de até colaborar com alguns coreógrafos aqui para ver o que é que vai dar.

 

—————————————

 

Hoje em dia os grupos que fazem danças tradicionais em Moçambique, já não fazem como elas são propriamente ditas. São danças tradicionais porque têm aqueles princípios, têm aqueles batuques, as vestes. Mas elas vão sofrendo alguma alteração, vão se transformando cada vez que as novas gerações vêm pegar o legado de dar continuidade. O corpo é outro, o tempo é outro, então… Depois, também esses estímulos políticos, essas convivências, essa coisa de consumir a cultura estrangeira, o ocidente, a América, os Estados Unidos, que está a tentar criar aqui uma coisa de termos uma só cultura, a nível político. Então, tudo isso faz com que as danças tradicionais sofram essa ruptura. Então elas agora já não são vistas de forma como elas deviam ser olhadas.

 

—————————————-

 

Eu uso esse termo tradição e transformação, porque nós estamos numa época em que as coisas evoluíram depois que a peça foi criada na África do Sul. A África do Sul é um país superdesenvolvido – estávamos numa província, Cape Town, que se pode até confundir que estás na França ou alguma coisa, porque tem lá muitos estrangeiros e brancos e tal. Então, de certa forma, sem querer me perder muito, eu penso que esses estímulos, essa coisa de estarmos a viver com a tecnologia, essas coisas todas, isso fez com que o trabalho ficasse super complexo. Às vezes, sem se aperceber muito bem. Quando apresentei a peça há dois anos, em Maputo, as pessoas ficaram assim: “nós não percebemos muito bem o que querias dizer”. Mas, se calhar foi por causa do espaço, porque em Cape Town a gente usou espaços alternativos, espaços em que o corpo estava ali presente, essa sintonia super de perto com o público, essa coisa toda. Mas, quando eu atuei em Moçambique eu atuei numa coisa tradicional, o palco, o público ali, super separado, à distância. Daí, que se calhar o conceito não passou muito bem. Gostaram do espetáculo, só ficou… o trabalho sofre uma ruptura, que vem de uma coisa super tradicional, super ancestral, depois ela muda, ela passa. Justamente para dizer o seguinte: as pessoas que imigram, geralmente são pessoas que vêm do campo, vêm do mato, e querem imigrar para a cidade para terem as melhores condições de vida. Então, o que elas carregam na verdade? Elas vêm com uma coisa ainda super tradicional, e coisas assim. Então, quando chegam numa cidade que já está muito desenvolvida, tem essa transformação, as coisas são vistas de uma outra forma. Daí, que depois acabou entrando nessa… aliás, tem que entrar. Então, é essa ruptura, explicando teoricamente e na prática. Porque, se temos um índio, por exemplo, os índios que usam as suas saias, as suas peles. Ele chega aqui e pode até continuar a preservar a sua cultura, mas ele vai se sentir… “Eu tenho que usar uma calça, às vezes, porque tenho que ir ter com um diretor, ou não tenho que ir descamisado…” Então, é isso que a gente tenta trazer neste trabalho, falando de forma teórica. Mas que é um exemplo prático, na verdade. É um exemplo que se vive no mundo.

 

———————–

 

No nosso país é muito difícil, aliás, não se vive de arte. Quem vive de arte, conta-se a dedos. E, se vive de arte, não vive de arte localmente, não faz só trabalhos locais. Tem que viajar, tem que fazer coisa. Eu sou multiartista, consigo ainda sobreviver. Eu não vivo de arte, na verdade, eu sobrevivo de arte. A maior parte dos artistas tem que se submeter a outras disciplinas artísticas. Mas também o artista moçambicano especificamente, ele nasce já com esse espírito de múltiplo artista. Tu encontras um bailarino, é pintor. Tu encontras um músico, é bailarino. Encontras um bailarino, é produtor. Então é assim onde a gente vai buscando a nossa sustentabilidade. Fazendo isto, pegando isto, fazendo aquilo e acolá.