Transcrição de depoimento | Jongo de Pinheiral por Fatinha do Jongo

Sobre

A cultura negra é a base da cultura no mundo. Então nós, aqui no Brasil, herdamos uma parte musical tanto instrumental, de performances, intelectual, a clássica… na minha região, por exemplo, a tradição de percussão e instrumentos de metal é grande entre os negros. Então, a gente vê a capacidade que o nosso povo tem de desenvolver arte através da musicalidade. E isso eu vejo no mundo todo. É muito forte a nossa cultura negra para a civilização.

 

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A minha perspectiva é muito grande, porque nosso povo é guerreiro. O nosso povo luta, o nosso povo corre muito atrás para estar se firmando nesse mercado. Nós temos visto vários jovens de periferia na dança clássica, no balé, indo para o exterior, e aqui mesmo no Brasil, vai se firmando. Dentro da música, dessa parte afro, tem cada performance muito bacana… o pessoal do hip hop. Então, a perspectiva é boa, nós temos grandes artistas, mas a gente precisa realmente é que a sociedade nos respeite, nos valorize, e a gente tenha espaço como esse aqui de estar podendo mostrar o que nós sabemos fazer e somos capazes de fazer.

 

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A gente precisa de mais apoio, porque a gente vê hoje em dia muitos jovens alienados, e que não se ligam tanto nas tradições. A gente tem tido essa dificuldade. Mas, quando ele passa a ter conhecimento, passa a ter vivências da nossa história, da nossa cultura, das nossas tradições, de tudo o que os nossos ancestrais deixaram para nós. A consciência dele fica ativa e ele passa a participar, a respeitar, a divulgar as nossas tradições, a nossa história. E tudo isso acontece através da dança. A gente vê aí a questão do passinho, do funk, o samba. A musicalidade é muito forte dentro do nosso povo e o jovem precisa disso, agora, precisa de incentivo. Essa parte social de políticas públicas precisa existir de fato, aí sim, a gente vai poder ter um protagonismo forte, do povo negro, no jovem negro.

 

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A gente vem de uma tradição onde se trabalha a cultura de todas as formas, no futebol, no samba, no jongo, a questão do moçambique[1], da congada, as nossas tradições religiosas, festas religiosas. Toda festa religiosa negra é muito linda, porque ela tem todo um ritual, toda uma tradição. E a criança que vem nisso de família, de pequeno, ela nunca esquece, nunca vai perder. Ele vai respeitar, vai manter a vida toda porque a comunidade negra é assim. É passada de geração em geração, as nossas tradições.

 

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A gente tem que lutar muito, muito mesmo, mais do que outro artista qualquer. Porque além da gente mostrar o nosso talento temos que lutar com outras coisas que vêm junto nessa sociedade. A gente se espelha em quem conseguiu, e a gente procura fazer melhor.

 

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O jovem, principalmente o jovem, porque nós estamos em uma idade mais avançada, a nossa questão é preservar a tradição. Mas, o jovem vem com toda a força, então ele consegue fazer essa diferença e saber onde melhor ele se destaca. E a gente pode fazer tudo o que a gente quiser. A gente tem visto o pessoal aí no balé, eu acho lindo. Até pouco tempo a gente não via negros no balé, mas agora a gente vê os meninos, principalmente os meninos se destacando. A gente vê o pessoal fazendo a dança afro, usando os nossos movimentos do jongo e da capoeira, para desenvolver um balé. Isso é cultura, tem que estudar, tem que aprender, tem que respeitar a tradição.

 

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A gente está nessa questão de trabalhar a dança do jongo já há muitos anos. A gente consegue entrar em alguns espaços, não todos. Tem pessoas que não conseguem respeitar e entender as nossas danças e a nossa cultura, preferem ou ignorar ou… eu acho que é falta de conhecimento mesmo, porque todo mundo que procura estudar, procura vivenciar a cultura afro fica apaixonado porque ela é muito linda. As pessoas que se recusam a isso é porque têm certas atitudes que não deixam a gente caminhar. Então a nossa luta é muito difícil para se firmar no mercado, pra ter visibilidade é bastante complicado, por causa da sociedade.

 

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Nos governos anteriores nós tivemos um incentivo muito grande mesmo pelo Ministério da Cultura. Ele entendeu que a cultura popular no Brasil de norte a sul precisava ser valorizada e isso foi feito. Foi dado incentivo às comunidades negras, aos artistas negros, aos indígenas, ao pessoal do nordeste, foi uma revolução que nós chamamos de cultura viva. Agora a gente perdeu um pouco o foco disso, houve um desmonte aí, e a gente está tentando sobreviver.

 

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É um evento de suma importância. Nós estávamos precisando de um evento de tão alto padrão. A dança pode se manifestar em vários segmentos e o nosso povo está aí pra mostrar o que nós herdamos, o que a gente tem. Nós, da comunidade jongueira temos muito orgulho em estar participando, podendo mostrar a nossa história, porque a verdadeira história do povo negro está numa roda de jongo.

 

[1] Dança de conjunto com formação em fileiras, em geral chamadas de linhas. O mestre é a primeira figura de sua linha, e o contramestre, da outra linha, à qual geralmente pertencem os que fazem o contracanto. As duas fileiras se defrontam, com bastão na mão direita e paiás na esquerda. Colocando os bastões cruzados no chão, os dançarinos cantam enquanto dançam. Quem encostar em algum bastão será substituído. (fonte: http://www.cnfcp.gov.br/tesauro/00000062.htm último acesso em: outubro de 2019)