Transcrição de depoimento | Imperadores da dança por Iguinho Imperador

Sobre

O Passinho se desenvolveu dentro das comunidades do Rio de Janeiro, o seu habitat natural foi o baile funk. Eu como um jovem de comunidade na época, acompanhei os precursores. Eu venho de danças urbanas e dentro das danças urbanas a gente aprendeu que a gente precisava abraçar algo nosso. Na época estava muito forte o movimento hip hop dos clipes, dos filmes de dança, e a gente tentava reproduzir o que a gente via dentro dos filmes no baile funk, na música, no funk. Já tinha alguns passinhos do funk, mas a mistura com outros tipos de dança do passinho foi muito forte. Então, a gente começou a batalhar, e nesse desenvolvimento de batalhas de um com outro sempre saía um passo novo, diferente. A cada final de semana que tinha batalha diferente a gente ia desenvolvendo e a cultura ia se formulando mais, ia se concretizando mais.

 

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Hoje em dia o Passinho está bem reconhecido perante a sociedade, a alguns outros locais. Já fizemos viagens internacionais para poder mostrar o Passinho, o mundo já sabe que o Rio [de Janeiro] tem uma cultura propriamente chamada passinho. A gente diz que é a primeira das danças urbanas brasileiras e a desenvoltura é que hoje em dia tem companhias de dança só de Passinho. Temos treino, damos aulas, tem muita batalha, tem evento, tem MCs e artistas pedindo dançarinos de passinho pra participar dos seus clipes de funk. Então, a cultura está se desenvolvendo cada vez mais ao longo desses anos.

 

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O Passinho é uma dança urbana, porém ele tem uma nomenclatura diferente porque ele vem de dentro do funk. E com as outras danças hoje em dia a gente tem um fair play muito bom. Quando a galera das danças urbanas entendeu nossa cultura estava se desenvolvendo, que a gente estava cravado, querendo melhorar a nossa cultura, eles nos abraçaram. A gente participou de treino junto com eles, eles vão nos nossos treinos. Hoje em dia, tem eventos de danças urbanas que o Passinho está inserido junto com outras danças e quando isso acontece a galera vibra muito junto com a gente. Tem tido um suporte muito bom das outras culturas porque é uma cultura que é nossa, nasceu aqui, é enraizada aqui. E a gente tem sempre o costume de se apropriar de algo que vem de fora. Quando a galera começou a entender isso eles nos incentivaram a cultivar, a nos apropriar mais, a estudar mais, a querer criar mais dentro da cultura.

 

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O nome em si já diz Imperadores da Dança, porque o nosso fundador na época foi um dos melhores dançarinos de Passinho que teve. Das batalhas, de todas que eu vi dele foram as mínimas que ele perdeu ou empatou, no máximo. Então, ele sempre dizia pra gente misturar, pra gente agregar outras coisas dentro do Passinho, mas não esquecer que o forte é o Passinho. Desde que eu faça o Passinho muito forte, que eu misture com o hip hop, com a capoeira, com o frevo, eu tenho sempre que ressaltar o Passinho. A diferença da gente é essa, que a gente faz outras danças, mas não esquece o foco principal que é o Passinho. Nas nossas coreografias, o elemento surpresa pode ser de danças urbanas, pode ser de capoeira, mas noventa por cento delas, o tempo todo, a gente trabalha em base das nossas coreografias próprias, dos passos do Passinho raiz. A gente trabalha também de acordo com a demanda, tem trabalho que a gente faz com três [bailarinos], tem trabalho que a gente faz com dois… a gente tem coreografias de base, que todos esses grupos quando vão fazer trabalhos diferentes eles sabem, e eles têm coreografias próprias como duos, solos. Então, a gente trabalha de acordo com a demanda do trabalho e as nossas disponibilidades.

 

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A gente se ajuda, a gente se comunica com outros territórios, a gente incentiva outros territórios a não pararem de criar, de fazer as suas atividades. A gente já fez intercâmbios com companhias daqui, com companhias de danças urbanas, com gringos, com outros países… estamos sempre caminhando atrás de evolução.

 

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O grupo se formou através de um dos relíquias – quando a gente diz relíquia no Passinho a gente diz um dos primeiros dançarinos a fazerem a cultura. Tinham rivais deles que se intitulavam os Reis da Dança, e por ele ganhar deles várias vezes ele falou: “não é justo eles serem os Reis da Dança se eu ganhei deles várias vezes, então eu vou ser o Deus da Dança.” A gente brincou e falou não vamos mexer com religião. A gente foi ao google a gente viu que em algumas províncias império se remete maior do que reino. Império é um só e reino são vários reinos, com um imperador só tomando conta. Ele falou: “Eu sou o Imperador da Dança e a gente agora vai ser os Imperadores da Dança“. Nossa formação hoje tem quarenta, trinta e cinco, que levam o nome. Não são todos necessariamente da dança, tem muita gente que acompanha, muita gente que divulga. Formados, nós temos vinte, vinte e três, com DRT, trabalhando, atuando na área. Da primeira formação a gente tem, concreto, cinco ou seis. Eu sou o segundo líder a assumir, depois do fundador, tem mais dois que também foram, nós três somos os mais velhos e estamos há dez anos direto na companhia sem parar.

 

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A gente incentiva a correrem atrás dos seus trampos, a não esperarem. A gente vai disseminando, a gente não diz que os Imperadores da Dança seja um grupo fechado, a gente considera uma família e uma fraternidade. E a gente está ali para educar e cultivar e criar para o mundo. Assim como as nossas mães dizem: “A gente cria filho pro mundo”. Com os Imperadores a gente faz isso também.

 

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A profissionalização é um processo que a gente vai vendo de acordo com a garra do dançarino. Ele começa a frequentar o treino, vê se ele está frequentando, a gente vê a capacidade dele pegar a coreografia, de ser versátil em outras coisas pra trabalhar com arte hoje em dia, não pode ser uma coisa só. Dentro disso, a gente começa a inserir ele em alguns trabalhos pequenos, e isso vai se graduando até que a gente incentiva ele a tirar o seu DRT. Hoje tem a modalidade de DRT dentro do Sindicato de Dança do Rio de Janeiro – modalidade Passinho. Ou incentiva ou a gente corre atrás de um incentivo para gente poder bancar esse DRT pro dançarino. Tem como viver de dança, não é impossível. É muito difícil. Eu, hoje em dia, graças a Deus, pago as minhas contas só com Passinho, só com arte, só com dança. Mas eu faço diversos trabalhos, me divido em várias modalidades também.

 

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O EntreDança está inserido as nossas danças populares, que não têm tanta visibilidade diante do público leigo. Só dentro da área teatral, dentro da área da arte e o EntreDança está atrás do público normal para ver esses trabalhos diversificados. E cada vez mais, fortificando. Nosso primeiro ano dentro do EntreDança junto com o Sesc está sendo muito gratificante, um aprendizado a mais para a gente poder se profissionalizar, entender o que é um projeto maior, trazer para o público o Passinho de raiz, mostrar que a gente tem a cultura viva, forte, capas de mostrar tudo que ela tem e de diversificar com outros grupos de dança também. É um mega projeto, a gente tá super feliz, super empolgado para que ele continue.