O corpo negro | por Cristina Moura

Sobre

Em minha trajetória como criadora sempre houve a urgência em comunicar bem como a urgência em falar do mundo de hoje, do nosso tempo, do que nos afeta, move e transforma. De forma mais explícita ou mais poética esta sempre foi a tônica de meu fazer artístico.

 

Em teatro ou dança, projetos autorais ou partindo de textos já existentes sempre busquei uma fricção com a realidade contemporânea, seus questionamentos, suas pulsões, suas dicotomias.

 

Mas é em minha criação de trabalhos solo, onde sou diretora e intérprete que exercito e realizo a máxima expressão dessa premissa.

 

Em Agô não poderia ser diferente.

 

Agô é uma peça que pulsa, uma peça que compartilha questionamentos, envolve a plateia num jogo cênico leve e profundo ao mesmo tempo. Esta criação não se furta a tocar temas fortes e contundentes do mundo de hoje mas o faz de forma suave e atraente, ate mesmo lúdica em alguns momentos.

 

Neste solo são ponto de partida conceitos da nossa sociedade que, nos dias de hoje, estão sendo debatidos de forma mais direta e contundente, questionados e revistos: negro, o imigrante, o refugiado, a mulher, as nações, o índio, o mercado, o capitalismo, a mídia. E também o preconceito, o consumismo, o feminismo, o euro-centrismo, a opressão.

 

Em meus processos de criação parto de muita leitura, autores diversos, temas relacionados, textos sobre política, filosofia, poesia, não há regra. Também me alimento de artistas visuais (em Agô há a decisão de pesquisar artistas do continente africano) e mais que tudo entro em um estado de criação e escuta, estou aberta a tudo que esta a minha volta. Uma frase dita, um objeto esquecido em sala de ensaio, uma pichação no muro no caminho, uma conversa ouvida no metro, o movimento dos vizinhos no prédio em frente a sala de ensaio, um silencio.

 

E depois são muitas horas solitárias em sala de ensaio.

 

A solidão de uma sala de ensaio, o desafio de desenvolver só em cena uma narrativa, sustentar uma dramaturgia, compartilhar ações, ideias e movimentos como uma plateia. Além do aspecto tão autoral e visceral em peças solo que muito me desafia e apraz.

 

Dar tempo ao tempo da ideia aparecer, do movimento acontecer, do que se quer dizer encontrar forma e movimento preciso. E muita imaginação e risco e lúdico. Brincar em sala de ensaio, experimentar, enlouquecer, passar limites, se deixar levar. Assim é meu processo.

 

Já há algum tempo estou maturando a ideia do solo Agô. Tenho dirigido muitos projetos de teatro e colaborado em tantos outros, mas o desejo de criar uma peça solo onde se misturam palavra, texto, imagem e movimento se fez presente. E em pouco tempo se fez urgente.

 

Em Agô muitas das minhas questões enquanto artista que já apareciam em criações anteriores voltaram a aparecer de forma mais clara e direta. Penso que isso se dá pelo fato de ser eu hoje uma artista madura, já muito consciente do meu fazer artístico e de minhas possibilidades cênicas e também pelo momento em que estamos vivendo, no qual muitas narrativas são mais claras, muitos conceitos que intuíamos agora são discursos claros e também pela possibilidade que a audiência tem hoje de lidar e pensar algumas questões.

 

O feminino, a mulher, o negro, a sociedade, o Brasil, a ancestralidade, o contemporâneo, o global, as minorias, a beleza e a feiúra, a religião, os refugiados, a violência cotidiana e muitos outros temas permeiam esta criação.

 

Vivemos um momento onde muitos conceitos estão remexidos, se reorganizando, se renovando, sendo revistos e debatidos. E minha arte reflete este momento.

 

Agô traz muitas perguntas num momento onde temos poucas certezas e defende o quão rico é este momento. E compartilha com o publico essas perguntas. A estrutura do solo se baseia no não espetacular, no compartilhamento, no fazer juntos.

 

Parto de diversos textos para criar meu texto na peça, criando diferentes personas com diferentes discursos. Como se todos fossem camadas do mesmo intérprete.

 

Os autores citados são: Achille Mbembe, Anna Miranda, Pedro Rocha, Franz Fanon, Grada Kilomba, Marcelo Yuka, Bell Hooks, Maya Angelou. Crio a partir de suas palavras minha palavra cênica.

 

Desta forma o convite para fazer parte desta edição do EntreDança com o tema ‘O corpo negro’ veio de encontro aos temas que norteiam esta criação desde que iniciei o processo de criação em 2017. Estes temas são visitados neste solo que partiu da pergunta: o que acontece no mundo enquanto me movo? O que acontece no mundo com um corpo negro enquanto me movo?

 

O corpo negro – excelente tema de reflexão e provocação. Num país onde há paradoxal relação com o corpo negro, a cultura negra e os negros em si é importante e oportuno um evento com este recorte. E até mesmo corajoso.

 

Não há um só corpo negro, nem só uma identidade negra. Somos brasileiros e feitos de todas as diversas influências que recebemos em nossa formação enquanto povo e continuamos recebendo enquanto cidadãos viventes neste mundo contemporâneo.

 

Foi muito interessante apresentar Agô neste contexto e estar juntos de outros trabalhos criados por artistas negros, principalmente para que se veja e entenda o quão diverso é este corpo negro brasileiro.

 

A meu ver o tema chama para reflexão e no meu caso para a conversa. Me interessa questionar junto com a plateia o próprio tema do evento EntreDança. Na verdade esse tema quase que impulsiona e potencializa ainda mais algumas cenas do solo, já que Agô fala de Brasil, de um Brasil contemporâneo.

 

Acrescento aqui parte do texto do espetáculo Agô que acredito ser a melhor forma de demonstrar a pertinência e importância deste evento acontecer neste tempo/espaço.

 

Textos Agô – solo de Cristina Moura

 

1) Texto 1
Eu preciso conversar com vocês
Eu preciso falar com vocês
Bem-vindos
Boa noite
Eu preciso conversar com vocês
Quando me chamaram pra estar aqui, eu fiquei contente
E era pra pensar o Corpo negro. Existe um corpo negro? Há um corpo negro? Há!
Existe um corpo negro? O que é um corpo negro?
Não seria só mais uma tentativa de colocar a gente numa caixa?
Pode um corpo trazer toda a história, a trajetória de uma gente?
Pode esse corpo negar essa trajetória?
Que que vocês esperam?
Que que vocês esperam quando veem um corpo preto aqui se movendo?
Minha pele é lisa, minhas costas são fortes, minha anca é grande.
Que que vocês esperam?

 

O que vocês vão ver aqui é a abertura do processo de criação do solo Agô
Agô pede licença
Ago pede licença pra fazer perguntas, pede licença pra falar do que eu não sei
Pede licença pra tocar símbolos, imagens
Pede licença pra brincar, compartilhar
Agô pede licença pra visitar o que eu não sou pra afirmar o que eu sou
Aqui vai ser taba, playground, festa, terreiro, palco
Que que vocês esperam?

 

Pra estar aqui comigo eu convidei Renato Linhares, Bruno Balthazar, Anna Dantes, Lucas Canavarro, Danilo Moraes, Rodrigo Lopez, Jupira da Conceição
E eu convido vocês

 

O que vocês esperam?
(Esse corpo é forte, sensual, brilhante, vivido, inquieto, potente, atrai, seduz, convida, fascina, repele, enoja, afasta, ameaça, confronta, amedronta, desafia, é magico.)

 

Eu preciso conversar com vocês
Eu preciso falar com vocês

 

2) Texto 2
Eu não sou um negro
Eu não sou nem mesmo uma negra

 

Negro não é meu nome, não é meu sobrenome, nem minha identidade
O fato de vocês me verem como negro não muda nada

 

O fato do negro ser submetido, diminuído, subjugado submetido não muda nada

 

Eu não sou um negro

 

Negro não é minha essência e não é minha identidade.
Eu sou um ser humano e isso basta

 

Eu não sou um negro

 

Isso de todos e todas preferirem as negrinhas de tez de ébano, as pretinhas, os pretos brincalhões, bons dançarinos, os pretos bons, nada disso é de hoje

 

Uma negra
Sempre um corpo, sempre disponível
Minha pele é lisa, minhas costas são fortes, minha anca é grande
Negra
Sempre voluptuosa, sempre um corpo.
Negra
Pele escura, dentes brancos, peitos empinados
Eu não sou uma negra
Eu não sou uma negra
Eu sou um homem

 

Eu sou um homem

 

Às vezes eu penso e eu penso que o negro não existe, assim como não existe o branco
Às vezes eu penso e eu penso que aqui é o meu sagrado, minha alegria.
Às vezes eu penso e eu penso que está cheio de gente aqui que a gente não vê
Às vezes eu penso e eu penso que todo mundo é negro
Às vezes e eu penso que está na hora da gente recuperar a palavra merecimento
Às vezes e eu penso que eu estou dentro do meu coração
Às vezes eu penso e eu penso que eu não penso nada
Às vezes eu penso e eu penso que não só a palavra mas cada coisa que invade cada coisa que invade a palavra, não só a palavra
Que eu queria botar minha família inteira, minha mãe, meu pai, meus primos, meus avos, todo mundo dentro de um avião e que eu queria explodir
Que saiu um navio da Tunísia com 300 pessoas a bordo e afundou. Morreram todos
Que eu não sei
Que eu não preciso saber tudo
Que eu não queria falar O mar eu queria falar A mar
Que eu sou você e você é eu
Que eu não sei seu pensamento

 

3) Texto Anna
A palavra ocupou a sala toda
Calou as janelas, o radinho de pilhas, os porta retratos
Arrancou os livros das estantes produzindo tsunamis com as persianas. Abafou nossas vozes ao grau zero
Ficamos todos espremidos dentre ela e a parede e o teto e as ripas de madeira do piso, o curto vão do oxigênio livre. A palavra grudou no sótão.
Agô
E agora passamos nossos dias presos olhando pra ela.
A palavra é uma estrela.

 

4) Texto 3
Sou boa a quem me inclino
Sou de vontade, se me der vontade eu vou
Mas sou de quizila e tenho minhas leis, que mesmo sendo poucas eu respeito
Sou amante muito dengosa no amor
Mas sou resoluta, extremosa, constante
Sou doce a quem me inclino

 

Eu vivo pra aprende
rE aprender é devagar. Olha, devagar, olhar, devagar, olhar
Quem muito pergunta nada aprende
E quem muito sonha nada pergunta porque no sonho a pergunta já é resposta
Às vezes a pergunta já é resposta
Muzumbu, adivinhação
Muzumbu, adivinhação
Selvageria
Se nada vejo, tu vês. Se nada sei tu sabes. Se nada sinto, tu sentes
Muzumbu Muzumbu
Adivinhação
Quem me trouxe foi o mar
O amor me deu 3 zagaiadas
Como 3 flechadas certeiras
Como 3 palavras ditas ou silenciadas
Não há amor sem lagrimas
E não há guerra sem sangue
Aqui vai haver guerra
Vocês estão preparados?
Aqui vai haver guerra
Tao preparados?
Mas não é guerra de pow, pedra não
É guerra de pensamento, de palavra,
Guerra de olhar o outro, de olhar o outro, de encarar o outro
Olhar o outro e não querer ver a si mesmo
Estão preparados?
Eu penso que tem coisas que devem ser ditas
Mas eu vou dize-las, eu não vou grita-las
Eu vi, mas eu nunca lá pus os pés
Esse cachorro é aqui
Cuidado! Esse chão tá molhado
Sou ao mesmo tempo mar revolto e calmaria
Quem me trouxe foi o mar
Eu vivo a solidão da minha própria extinção
Atravessei os mares e estou aqui
Sou vingança e esperança
Atravessei os mares
E estou aqui
Eu estou aqui

 

4) Sou ao mesmo tempo vingança e esperança
Esse corpo é forte brilhante, magico. Convida, atrai seduz, ameaça, repele, enoja
Que que vcs esperam?
Esse corpo fascina, amedronta, ameaça, enoja, repele.
Que que vcs esperam?

 

5) Perguntas
Renato, quem é seu espelho?
Um ovo
Lucas, quem é seu espelho?
Minhas amigas e meus amigos
Bruno, quem é seu espelho?
Oxum
Gisele, quem é seu espelho?
Não sei, que medo
Luiz, quem é seu espelho?
O outro
Anna, quem é seu espelho?
Oxum
Gabriel, quem é seu espelho?
Ai, tanta gente é meu espelho
Danilo, quem é seu espelho?
A minha mãe
Mariana, quem é seu espelho?
O ar
Rodrigo, quem é seu espelho?
Josi
Aisha quem é seu espelho?
Você
Eu atravessei os mares e eu estou aqui
Eu estou aqui

 

6)Texto 4

 

I am here
I am Royal
I am back bitches
I am here
I am Royal
I am back bitches
If I could be what you want me to be
If I could be what you want me to be
I would ratter be what a want to be
I am here
I am Royal
I am back bitches
I am here
I am Royal
My memories are not sweet
You pretend you don’t know
You don’t need to know

 

You must be paranoic
I am here
I am Royal
I am back bitches
There is no anger in my gestures
If I could be what you want me to be
I would ratter be what I wnat to be
You pretend you don’t know
You don’t need to know
I am royal

 

Cansa viu
É serio, cansa
Às vezes eu canso e ai eu paro
Dói aqui e aqui também
Cansa

 

I am here
I am royal
I am back bitches
I am here
I am royal

 

7) Texto Renato
Os meninos não amei quando eram meninos e queriam me matar
Amei quando não eram
Os homens eu não amo quando são homens e querem me matar
Amo quando não o são

 

8) Texto 5
Eu cruzei os mares e estou aqui
Eu estou aqui!

 

Por CRISTINA MOURA
Espetáculo Agô
Festival Sesc EntreDança 2019 – O corpo negro