[Sem título] | por Carlos Laerte

Sobre

Como bailarino e professor desenvolvo minha carreira desde a década de 90, comecei como bolsista em algumas escolas na zona sul, precisava de reconhecimento artístico e técnico, para isso eu tinha que ter uma técnica muito forte, então fazia muitas aulas. Dancei nacional e internacionalmente, foi quando comecei a enxergar a diferença de ser um artista negro ou não, porque até então no Rio de Janeiro, onde minha carreira deslanchou não sentia essa diferença.

 

Sempre fui o único negro nos lugares que passei, isso nunca me afetou como artista, nem tirou o foco de onde queria chegar, até porque queria ser um exemplo para todos que estavam vindo, e como referência eu sabia dessa responsabilidade, mas nunca parei para pensar nessa problemática, em primeiro lugar chegava com a minha arte e isso sobrepunha todos os empecilhos que a sociedade colocava na época. A arte era maior do que isso, então não tinha problema, quando estava no teatro me apresentando as pessoas me viam como artista, quando acaba minha peça e eu ia para a rua virava um cara normal. E aí sim eu enxergava essa dificuldade que todos nós negros temos até hoje em relação a ter uma vida melhor enquanto cidadão, pensador, artista, profissional, mas eu digo sempre para os meus alunos, estude que sua vida melhora, uma frase que sempre usei como mote e impulsor para que eu pudesse ser o que sou hoje.

 

Quando eu tinha 19 anos para 20 eu fiz um espetáculo chamado “Cristal”, na direção de José Maurício Macklin, coreografia de Ciro Barcelos, só com bailarinos e cantores negros, para cada final de semana era um cantor convidado. A ideia era muito boa, mas coreograficamente me colocava no início do século, como se estivéssemos pedindo permissão para estar ali. Era um lugar bem bacana porque nós estávamos na Lagoa, zona sul do Rio de Janeiro, quer dizer então que a plateia era de Classe A. Macklin era um cara articulador e de influência cultural muito forte, sempre foi muito próximo a grandes músicos da música popular brasileira, como Milton Nascimento, Emílio Santiago, Sandra de Sá, todos eles passaram por lá para fazer uma participação no espetáculo. Fomos a vários programas de televisão, ficamos em cartaz no Rio e depois em São Paulo. Logo em seguida fui convidado pela Carlotta Portella para trabalhar com ela no “Vacilou dançou” e achei mais interessante ficar no Rio.

 

Se eu já sofri preconceito?! Talvez sim. Lembro uma vez que eu fui convidado para fazer o comercial da coca-cola era muito novo devia ter uns 20 anos, passei na audição e quando fui na agência para fazer a imagem o diretor falou que não precisava, que não era o perfil, mas ele não me chamou de negro, mas com certeza eu não fiz por ser negro, mas tudo bem eu não levei aquilo como preconceito, não era o perfil dele, tudo bem para ele e tudo para mim, isso não me incomodou nenhum segundo, eu não puxei a militância por conta disso, o cara não está fazendo comigo por eu ser negro, ó vida, ó azar, não, ele não quis e quem perdeu foi ele, vida que segue. Fora isso acho que não aconteceu mais nada na minha vida, até porque em todos os lugares que cheguei eu me coloquei muito forte, então nunca tive essa questão, isso nunca foi uma questão para mim sempre foi questão para os outros.

 

Quando eu fui para Nova York pela segunda vez, se eu não me engano, foi quando eu percebi de fato a diferença entre ser artista negro ou branco, porque no Brasil, no Rio de Janeiro isso não era muito claro, principalmente quando eu dançava com companhias, as pessoas não me tratavam como negro, me tratavam como artista. Então isso sempre foi muito claro para mim, eu sempre me coloquei dessa maneira, sempre coloquei minha identidade na frente e aí não dava oportunidade as pessoas de me ver como negro, eu não oportunizava isso, até porque a dança que eu fazia era uma dança de brancos, era dança moderna, ballet clássico, o jazz tinha alguns negros, mas eram poucos, de uma sala de 40 alunos eu acho que era eu e as vezes aparecia um outro e não ficava. Eu sempre privei muito pela qualidade do meu trabalho e pela técnica, então fui passando por essas questões muito rápido na minha vida, sempre me coloquei dessa maneira no Rio de Janeiro quando fazia os trabalhos. Nunca parei para pensar sobre a questão de ser negro, de conseguir por isso ou não, até usar como algumas pessoas usam, como a cota por exemplo. Eu sempre foquei no que eu quis e sempre fui muito objetivo nas minhas questões, nas minhas escolhas, enquanto artista, enquanto cidadão, então sempre para as pessoas era o Carlos Laerte em primeiro lugar, nunca foi esse “negão” que dança, isso nunca apareceu na minha vida porque eu nunca me coloquei dessa maneira, sempre fui muito bem resolvido em relação a isso. Só o fato de estar fazendo já era um ato político como sempre digo e assim as pessoas vão seguindo, vão acompanhando você como exemplo. Então não precisava entrar em nenhum tipo de militância, de querer falar ou me vitimizar em relação a questão de ser um artista negro, eu sou um artista. Sou um artista negro? Sim, é óbvio, está na minha identidade, na minha essência, na minha pele, na minha história. Mas eu posso falar sobre o que eu quiser, as pessoas vão acompanhar e entender isso. Eu sempre falei sobre essa questão e até hoje as pessoas não consegue entender e enxergar que você está como Artista em primeiro lugar, talvez daqui a uns 20 30 ou 40 anos aqui no Brasil as pessoas vão começar a falar sobre isso, na América do norte já estão falando, o artista atua da melhor maneira com a arte dele, atua como um personagem que for escolhido para ele, um médico, ou bandido, ou mocinho, advogado, gari,….ele não é um “Negão” (a não ser que seja esse o personagem da história).

 

É de muita importância a união dos negros para termos um lugar mais forte. As pessoas não estão preocupadas se você é negro ou branco de fato, querem ver de fato o resultado do trabalho, isso é o inconsciente coletivo muito forte que temos aqui no Rio de Janeiro, cravado na nossa cultura, as pessoas não estão nem aí para você. Mas quando você começa a produzir de uma forma bacana, quando faz um trabalho independente você cria uma concorrência em relação ao outro, e eles te colocam como negro.

 

Quando comecei a dar aulas era sempre para brancos, os negros na época não tinham condições de pagar uma escola de dança. Fui muito solitário em relação a isso, os brancos nunca conversaram comigo, até porque era uma coisa que não afetava eles, então as pessoas nunca pensavam muito se eu estava bem ou mal em relação a isso.

 

Quando montei a Laso Cia de Dança contemporânea, pensei sobre questões que me agoniavam e angustiavam em relação a minha arte. Eu estava cansado de dançar trabalho das outras pessoas, eu queria falar para a sociedade o que eu estava pensando em quanto artista, não quanto coreografo e artista negro, mas como artista. Até então quando montei a companhia eu não precisava falar sobre isso, queria falar sobre coisas que estavam me assolando em relação à época, a mim e aos artistas, então nós tínhamos isso em comum, não queríamos falar sobre a questão dos negros, queríamos falar sobre outras coisas, porque já era tão absurdo tudo o que estávamos vivendo em relação a cidadania, a cultura (que não tinha nenhuma), falta de dinheiro, falta respeito e cuidado, e falar sobre o negro naquela época…. você como cidadão já não tinha nada imagina os negros, nas favelas, nas comunidades, eles nem pensavam nisso. Não me viam como diretor negro, tanto que não falávamos do tema negro, vim falar sobre esse assunto dentro dos espetáculos uns anos depois de consolidar a companhia, não por ser negro, mas por serem coisas que queria falar quanto artista, acho que a sociedade precisava ouvir. Me olhavam de uma maneira desconfiada, não porque eu era negro, mas sabiam que eu estava nesse lugar socialmente falando, por que é muito difícil ter um negro como diretor coreografo contemporâneo na década de 90 no Rio de Janeiro, para as pessoas era incomum, e não acreditavam muito, mas quando viam o resultado do trabalho mudavam completamente, afeição, o tratamento e a maneira de lhe dar.

 

No “Cabeção de nego” eu brinco muito bem com a sociedade a questão de ser negro ou não, a temática do espetáculo não fala nada sobre negro é uma pegadinha que eu fiz com a plateia, era cabeção de nego porque eu fazia uma menção a tecnologia, mas as pessoas iam assistir achando que só tinha negros. Em “Nega do cabelo duro” falo de todas as mulheres brasileiras, a maioria com raízes, negra por tudo, pela cultura, pela forma de andar e pela mistura, falava sobre esse clareamento de pele e de cabelo, a maneira de se colocar. As mulheres negras estão pedindo ajuda até hoje, pelo amor de Deus me enxerguem. O que é o clareamento? Casar com um cara branco, ou gringo, alisar o cabelo, ir ao shopping, usar roupas que te colocam de outra maneira, mas nem todas conseguiam ou conseguem fazer isso, porque é muito difícil.

 

A Laso companhia de dança contemporânea sempre foi uma companhia de identidade, sempre privei trabalhar a identidade dos artistas, independentemente da cor, mas sempre tinham negros ao longo da minha trajetória. Acho que era um lugar que eles se identificavam e era de uma maneira confortável, onde se sentiam bem. Mas nunca foi uma companhia só de negros ou só de brancos, era uma companhia que oportunizava identidades.

 

Hoje na Laso depois de muitos anos eu percebo que cada vez mais eu trabalho a identidade e meu querer quanto artista independente do lugar que eu vá. Nós fomos para Berlin e o curador tinha uma questão dos negros também mas ele não pediu trabalho nenhum com negro e nós fomos aplaudido em cena aberta por mais dois minutos e quando acabou o espetáculo nós fomos ovacionados e ninguém nunca tinha ouvido falar na companhia, então assim eu percebo que era cada vez mais na Europa e Estados Unidos as pessoas entendem a sua questão quanto artista independente da sua cor, tudo bem que você é negro já está lá na sua essência, é muito bom isso é muito bem resolvido em relação aos outros países, aqui as pessoas ainda tem esta questão de você ser negro, tem que fazer um trabalho com negros, para negros, e dança de negro. Mas acho que talvez daqui a uns 10 anos as coisas vão começar a mudar, bem devagar mas acho que sim.

 

Eu fiz um trabalho para o Dança em Trânsito da curadoria da Gisele Tapias chamado Alforria, ela pediu para que eu fizesse um trabalho só com negros que seria na escadaria do Teatro Municipal, e aí aproveitei o ensejo para homenagear Mercedes Batista, a única bailarina negra que ainda não havia sido homenageada na época, e resolvi fazer um pocket de 15 minutos baseado na história. Alforria, os negros pediam para dançar dentro do Teatro e os bailarinos do Teatro pediam para dançar fora, era uma durabilidade entre as duas artes, os negros e a arte do branco, foi um trabalho bem bacana, teve uma audição só para negros, percebi que muita gente se identificava nesse lugar e precisava se colocar, fiquei muito feliz com o resultado do trabalho.

 

A sociedade branca impõe isso e te coloca nesse lugar, você é negro tem que falar de negro, porque se falar de outra questão está errado, você não consegue falar sobre outra coisa, porque não estudou para isso, não tem embasamento é assim que os brancos se colocam em relação a coreógrafos negros. Se eu tivesse falado sobre uma dança afro, talvez, eu tivesse tido muito mais sucesso no Rio de Janeiro, porque está no gueto, mas é isso que as pessoas querem, inclusão para exclusão.

 

A questão de ser artista negro no Brasil é muito forte, até como cineasta que sou são poucos negros que vem, então quando você vai para Alto Escalão da sociedade é sempre 1 ou 2 no máximo de 30/40 Brancos, sei que é muito difícil para as pessoas chegarem nesse lugar, mas tem que tentar, tem que fazer, por isso estou aí para dar exemplo aos jovens. Como cineasta também digo que é uma questão muito complexa, a gente tem que estar o tempo inteiro fazendo e acreditando, que as pessoas vão estar olhando e reconhecendo. Se você for reconhecido como artista que ótimo, se for reconhecido como artista negro por outro negro que ótimo, é uma referência para ele, que bom.

 

Sempre trabalhei pensando em melhorar tecnicamente, estudar e ser exemplo para as pessoas, ser um cara de bem com a vida e querer o melhor para todos. Esse é o melhor exemplo que eu posso dar como artista negro para os jovens que vem aí.