Por um ritual cênico: a Nave Gris e o corpo negro | por Kanzelumuka e Murilo De Paula

Sobre

Apesar de dinamitado pelo processo de escravidão e dominação, o corpo negro preservou e condensou uma sabedoria pelos movimentos, pelos ritmos e pela energia, bem como pela oralidade, que vem sendo transmitida como que um plano conspirativo, invisivelmente instalado no interior da própria sociedade.

 

Júlio César Tavares

 

A Nave Gris Cia. Cênica[1] foi criada no ano de 2012 na cidade de São Paulo por 4 artistas[2] com formações, trajetórias e pesquisas distintas e que possuíam interesse numa linguagem limiar, centrada no corpo como lugar de trânsito de memórias e narrativas. Outro interesse comum revelado nestes primeiros encontros da companhia era o de constituir a cena como ritual, a ser instaurado pelo movimento e ação dos intérpretes como um convite aos espectadores para perceberem e vivenciarem outras relações espaço-temporais, de contato com a memória e ancestralidade e de comunhão com a terra e elementos/forças naturais. A busca por instaurar um ritual cênico foi fruto da confluência das experiências anteriores dos integrantes da Nave Gris, que passavam principalmente pelo butô, experienciado por todos os artistas da cia, e pela vivência e pesquisa das culturas tradicionais afro-brasileiras, trazidas e partilhadas por Kanzelumuka. As danças e mitos da tradição banto como o candomblé angola, congados e moçambiques seriam matéria e motores para as criações da companhia. Nestas manifestações, a memória se faz encarnada, em constante movimento e, para os povos negro-africanos e seus descendentes brasileiros, ela é evocada através da corporeidade, de seus corpos negros, nos gestos rituais e cotidianos que têm ecoado há séculos e que reverberam ainda fortemente no tempo presente. Na diáspora africana, toda a cultura e tradição dos povos africanos foram trazidos na memória do corpo. Nestas culturas predominantemente orais e gestuais, o corpo é texto (LIGIÉRO, 2011), “é, por excelência, o local da memória. Dançar é performar, e uma das maneiras em que a memória dos saberes dissemina-se”, como diz Leda Maria Martins, poeta e ensaísta que desde o nascimento da Nave Gris tem nos inspirados em nossos estudos. É ela quem vai reelaborar a noção de encruzilhada que também nos orienta a perceber o corpo negro como corpo-encruzilhada, assim como o termo motrizes culturais, referenciado por Zeca Ligiéro (2011), que nos possibilita a compreensão deste corpo: um sujeito-organismo como “lugar radial de centramento e descentramento, interseções e desvios, texto e traduções, confluências e alterações, influências e divergências, fusões e rupturas, multiplicidade e convergência, unidade e pluralidade, origem e disseminação” (MARTINS, 1997, p. 28).

 

Cientes de que a instauração de um ritual cênico depende de sua prática cotidiana, buscamos criar rituais em nossos ensaios: limpeza e preparação do espaço de trabalho, cuidados individuais com o corpo, práticas coletivas técnico-criativas, entendendo que o potencial criador não deve ser dissociado do trabalho técnico. Desta forma, a cada encontro instauramos um espaço artístico comum, em que seja possível a cada criador se manifestar e jogar a partir dos diferenciais estéticos que constituem a sua experiência artística e de vida. O ensaio em si, para nós, é um ritual e as apresentações a sua dimensão pública.

 

Trilogia das águas

 

Para a poeta e historiadora Beatriz Nascimento o corpo é mapa, documento e identidade. A constituição e redefinição do corpo negro se faz por meio de deslocamentos, da experiência da diáspora e na transmigração, forçada ou não dos povos de origem africana. O corpo negro é o principal documento dessas travessias.

 

Em 2013 a Nave Gris dá início a um processo criativo que daria origem ao seu primeiro espetáculo: Dikanga Calunga, solo dançado por Kanzelumuka, com direção de Murilo De Paula e música ao vivo dos artistas convidados Leandro Perez e Sandro Lima. Neste trabalho pudemos reelaborar algumas inquietações latentes para Kanzelumuka desde sua passagem pela universidade, assumindo uma perspectiva feminina da diáspora negra. Tendo o candomblé angola como uma de nossas fontes de pesquisa que reconta os mitos através de suas danças rituais, em Dikanga Calunga buscamos instaurar o ritual através de uma perspectiva estética, artística, que representasse por seus próprios meios os mitos e ritos a partir de nossas percepções e afetos na relação com eles. Isto nos exigiu encontrar um princípio estruturador, dramatúrgico, que levasse em conta a percepção espaço-temporal presente nas culturas tradicionais negras, da memória curvilínea e do tempo espiralar (CF. MARTINS, 1997 e 2002).

 

A água do mar é elemento feminino e transformador que conecta o ser humano ao que lhe é ancestral e sagrado, assim, Dikanga Calunga remetia a um espaço de fluxo entre ancestralidade, tradição e contemporaneidade, recriação de uma terra mítica marcada pelas tensões entre o conhecido e o porvir, as transformações do eu que se apropria de tudo que atravessa seu corpo e se põe em constante trânsito. Foi a esse EU múltiplo que chamamos de corpo-encruzilhada. Nosso olhar para a diáspora negra foi, portanto, o olhar sobre o corpo em deslocamento, em busca de uma terra possível, que não está mais no passado, nem no futuro, mas que é preciso ser construída a cada instante no presente. Não negar o passado nem o devir é o que pudemos apreender de uma concepção de tempo cíclico, em oposição ao entendimento evolucionista de um mundo que progride através do esmagamento e apagamento de sua história e mitos.

 

Como desdobramentos dessa mesma pesquisa foram criadas a intervenção coreográfica Minha Cabeça Me Salva ou Me Perde[3] (2014) e o espetáculo Corredeira[4] (2017), esse último a partir do fluxo dos rios. O feminino transcriado numa trilogia das águas, salgadas e doces, que traz em si elementos temáticos, poéticos e técnicos inspirados, sobretudo, pelas divindades femininas (muhatu) Kayaia, Dandalunda e Nzumba. Por meio do trabalho desenvolvido pela Nave Gris e na construção destas três obras pudemos estabelecer e aprofundar relações entre manifestações culturais em seu contexto tradicional e litúrgico e a criação em dança contemporânea, investigando como elementos presentes na cultura afro-brasileira podem mover, nutrir e embasar uma produção cênica que não recorra à mimetização de suas formas, mas que compreenda seus princípios e meios de resistência e reinvenção. Esse caminho aponta para outras abordagens técnico-poéticas da dança e de estruturação da cena, que se diferencia de uma abordagem puramente temática.

 

Corpo-encruzilhada

 

A força de conviver com a diversidade e integrar as diferenças sem perder o horizonte da matriz simbólica originária é a principal característica do jogo negro.

 

Muniz Sodré

 

O conceito de corpo-encruzilhada que nos acompanha desde o espetáculo Dikanga Calunga ganha outras matizes no processo de A-VÓS, dança-homenagem aos nossos mais velhos. É neste espetáculo em que mais se cruzam as subjetividades, memórias e referências diversas de seus três criadores – Kanzelumuka, Murilo De Paula e Fredyson Cunha -, que se dispõem a colocar em jogo suas experiências técnicas e estéticas, suas memórias e afetos na construção da obra. Diante das diferenças dos corpos e histórias, o que organiza a criação é a instauração de um espaço comum em que seja possível coabitar elementos convergentes e divergentes. A encruzilhada. Corpo-encruzilhada: lugar de múltiplas passagens e trocas; caminhos que se encontram e se distanciam, espaço de fluxo constante. Em A-VÓS, elementos do butô e das danças indígenas Bororo[5] somam-se aos elementos culturais afro-brasileiros e à investigação dos ngangas (velhos-sábios), através de uma lógica estética da encruzilhada. A encruzilhada é também um chão, o chão que pisamos, o que nos assenta, dá impulso e eixo. Nas camadas de chão nos encontramos com nossa ancestralidade.

 

A busca de espaços de encruzilhada excedem as obras artísticas da Nave Gris, e nos vemos impelidos a expandir esse território de trocas e fluxos. Desde 2015 temos idealizado e realizado ações com o protagonismo de artistas negras(os) com trabalhos independentes contemporâneos, voltados para a investigação cênica plural, que em sua maioria partem das motrizes presentes nas culturas populares e tradicionais afro-brasileiras, mas também respeitando e colocando em jogo criações realizadas a partir de outros pressupostos e referências culturais. Idealizamos e realizamos I e II Encontros Mulheres Negras na Dança (2015 e 2017 respectivamente), o VISIVEL+NAVE Encruzilhada Ocupação Cênica (2016), além da curadoria do Negras Danças – Diálogos Transversais (2017) , eventos em que reunimos atividades artísticas e formativas, com uma programação composta por espetáculos, performances, debates, workshops e exposições.

Danças (negras) contemporâneas

 

Para estabelecer um caminho de reflexão sobre a dança negra, vejo que esta é constituída de sua especificidade enquanto linguagem. Ou seja, agrega o conceito de uma identidade de cultura afro-brasileira que apreende a estética do corpo que fala, desse corpo impregnado de valores, marcado pela sua história e condições de vida. Incorpora experiência que passam por experimentações estruturadas em processos de pesquisa, em processos criativos de incorporações de outras linguagens e estilos na sua expressão e comunicação.

 

Inaicyra Falcão dos Santos

 

Apesar das motrizes afro-brasileiras permearem toda nossa produção e pensamento artísticos, não denominamos a Nave Gris como uma companhia de dança negra contemporânea, já que também é movida por outras perspectivas de fazeres artísticos e linguagens, como mencionamos no início deste texto. Nos interessa a aproximação com os princípios presentes nas culturas tradicionais afro-brasileiras e ameríndias, que agregam o diferente instaurando processos de alteridade. Reconhecemos, no entanto, que tais nomeações são fundamentais pois afirmam um posicionamento político e um contexto poético de criação artística, motivo que nos levou a denominar e reconhecer alguns de nossos trabalhos como trabalhos de dança negra contemporânea. É importante dizer que para nós, a dança negra contemporânea, quando concebida e elaborada por artistas negras(os), coaduna com o que Nilma Gomes (2009) e tantos outros artistas e intelectuais negros (as) dizem ser fundamental: a produção de conhecimento feita pelo negro e não sobre o negro ou para o negro como tem sido também na tradição das danças cênicas. Entretanto, é preciso estarmos em alerta com nomeações, que podem, ainda, limitar nossa atuação aos olhos do Outro, que tende a nos homogeneizar, nos negando o direito à diferença.

 

REFERÊNCIAS:

 

GOMES, Nilma. Intelectuais negros e produção do conhecimento: algumas reflexões sobre a realidade brasileira. In: SANTOS, Boaventura de Sousa; MENESES,
Maria Paula (org.). Epistemologias do Sul. Coimbra: Almedina, 2009.
LIGIÉRO, Zeca. Corpo a corpo: estudo das performances brasileiras. Rio de Janeiro: Garamond, 2011.
MARTINS, Leda Maria. Afrografias da memória: O reinado do rosário no Jatobá. São Paulo: Mazza, 1997.
_________________. Performances do tempo espiralar. In: RAVETTI, Graciela & ABEX,
Maria (orgs.). Performances, exílio, fronteiras: errâncias territoriais e textuais. Belo Horizonte: FALE – Faculdade de Letras da UFMG, 2002.
PAULA, Franciane Kanzelumuka Salgado de. Evocações e presenças negras na dança contemporânea paulistana (2000-2015). 2016. 140p. Dissertação (Mestrado em Artes) – Instituto de Artes, Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, São Paulo, 2017.
______________________________________ . Em águas abundantes: as diferentes escrituras do corpo cênico a partir das matrizes corporais das danças de Kayaia. In: Colóquio Internacional – O AFRO CONTEMPORÂNEO NAS ARTES CÊNICAS: Perspectivas Teóricas, Poéticas e Pedagógicas, 2016, São Paulo. Anais do Colóquio Internacional – O AFRO CONTEMPORÂNEO NAS ARTES CÊNICAS: Perspectivas Teóricas, Poéticas e Pedagógicas, 2015. v. 1. p. 01-278.
SANTOS, Inaicyra Falcão dos. Corpo e ancestralidade: uma proposta pluricultural de dança-arte-educação. Salvador: EDUFBA, 2002.
_________________________. A dança de matriz africana no Brasil. Salvador, BA. 30 mai. 2005. Palestra ministrada no I Fórum Nacional de Performance Negra.
SODRÉ, Muniz. O terreiro e a cidade: a forma social negro-brasileira. Rio de Janeiro: Imago; Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 2002.
________________. A verdade seduzida: por um conceito de cultura no Brasil. 3. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.
TAVARES, Júlio César de. Dança de guerra – arquivo e arma: elementos para uma Teoria da Capoeiragem e da Comunicação Corporal Afro-Brasileira. Belo Horizonte: Nandyala, 2012.

 

[1] A Nave Gris Cia Cênica é codirigida artisticamente por Kanzelumuka e Murilo De Paula. Em sua prática criativa é fundamental o trabalho em parceria com artistas convidados, criando territórios de fricções onde cada um dos criadores se encontram no fazer a partir de suas diferenças e afinidades estéticas e técnicas, construindo trabalhos onde divergências e convergências tornam-se presentes como procedimentos de criação e matéria poética.

[2] Formação inicial da companhia: Ana Musidora, Diogo Cardoso, Kanzelumuka e Murilo De Paula.

[3] Minha Cabeça me Salva ou me Perde foi concebida e criada por Kanzelumuka e Murilo De Paula em 2014 que teve como artistas convidados Ciça Coutinho e Fredyson Cunha, na versão apresentada ao longo de 2016 e 2018.

[4] Corredeira é uma criação de Kanzelumuka com colaboração dramatúrgica de Murilo De Paula, que também codirige a obra.

[5] A referência das danças Bororo foram partilhadas por Fredyson Cunha e partem de sua pesquisa acadêmica e artística e de sua vivência junto a essa etnia.