O que se passa EntreDança e Clínica? | Grupo de Pesquisa CorpoSSutiS

Sobre

[Jully Wanny Rocha (bolsista Pibic-UFF), Julia Câmara, Julia Craveiro, Mariana Aquino, Marcelle Freitas, Luiza Loyola, Vic Guimarães, Catarina Resende]

Laboratório de Subjetividade e Corporeidade

Universidade Federal Fluminense

 

A pesquisa de iniciação científica “Uma arte das conexões sutis: a formação de um corpo-clínico sensível” é desenvolvida desde 2018 no curso de Psicologia da Universidade Federal Fluminense (Niterói) pelo grupo de pesquisa CorpoSSutiS e é vinculada ao Laboratório de Subjetividade e Corporeidade (CorporeiLabS). No âmbito dos estudos dos processos de subjetivação e das corporeidades buscamos uma metodologia que se dá, necessariamente, na contramão dos modelos da ciência moderna, ainda tida como hegemônica – a qual elabora um plano pré-determinado, separando sujeito e objeto através de uma lógica da representação, com aspirações ao purismo da neutralidade científica. Divergentemente, apostamos numa perspectiva transdisciplinar, rompendo as fronteiras “seguras” dos especialismos encerrados em áreas disciplinares, de modo que, investigar a clínica nos impulsiona a considerar o seu fora, como os campos da arte, da filosofia, da ciência e da política como intercessores para a criação de novos diálogos e sentidos aos estudos das corporeidades, a fim de dar relevo ao corpo em seu aspecto sensível como território de novos possíveis. Para tanto, há uma ampliação da dimensão estética da clínica, transversalizada por encontros prático-teóricos, visando problematizar um certo regime sensível dos corpos e dos afetos. Cada abordagem transdisciplinar será uma estratégia e uma aposta daquilo que se passa no limiar entre o clínico e o colocado como não clínico, capaz de afirmar uma clínica que possa atualizar a experiência da existência como afirmação. O corpo teórico não objetiva, de modo algum, fundar uma técnica correlata para todos os casos, mas, sim, sustentar as transformações ético-políticas implicadas em um saber e em um fazer que se dispõem a estar em relação com as singularidades que atravessam. A partir dessa transversalidade entre práticas e saberes, questionamos como se desenrola a formação desse corpo-clínico sensível: seria possível elaborar, manusear, avaliar uma experiência sensível como matéria formadora de um corpo-clínico na graduação em Psicologia? Entendemos esse Corpo-Clínico como não apenas o corpo do clínico, mas reabordando-o enquanto um campo de composições vivas que inclui o corpo do analisando, o ambiente e as zonas de contágio dos movimentos intensivos, aquilo que se dá no entre, inclusive o que é indizível e invisível.

 

O primeiro dispositivo metodológico para essa investigação foi o jogo Modo Operativo AND (FIADEIRO, EUGENIO, 2013; RESENDE et al, 2017) como instrumento de sensibilização, no intuito de expandir experiências intensivas em nossos próprios corpos, sem uma distinção rígida entre sermos sujeitos e objetos de pesquisa, habitando as zonas de contágio entre corpos numa relação de cuidado. Com essas experiências, buscamos nos atentar à sensibilidade de composição com outros corpos e “costurar” as rodadas do jogo com a clínica e a vida. Numa aposta clínica ético-estético-política, nos debruçamos sobre a pergunta “Como viver juntos?”. Após cerca de 10 meses de prática, partimos para um mergulho imersivo em atividades da temporada de Laboratórios de Verão AND LAB Brasil 2019 “DO IRREPARÁVEL: O QUE PODE UMA ÉTICA DE REPARAÇÃO?”. A partir dessa experiência imersiva, a qual colocamos nossos corpos-pesquisas (entendendo que, desde o início sempre fomos sujeitos e objetos de pesquisa) para experimentar novas modalidades do jogo, de maneira que ficou mais nítida a “objetificação” dos nossos corpos, nos defrontamos com um novo contorno de problemáticas que emergiram. Ao mesmo tempo que fomos experimentando a força da dimensão intensiva junto a materialidade dos nossos próprios corpos, lançando-nos no plano do impessoal, pudemos nos conectar às histórias e narrativas singulares que as marcas dos nossos corpos traziam, desorganizando a superfície (meta)estável de um certo corpo coletivo da pesquisa. Enquanto o jogo, de certa forma, tinha um tom universalizante e tinha como objetivo cartografar as tomadas de posições e a maneira que seria possível viver juntos a partir do ato de nos relacionarmos, tentando deixar de lado a história da singularidade do corpo de cada um e dando ênfase à geografia configurada, deparamo-nos com um incômodo, um silenciamento que ganhava espaço em nossos corpos enquanto pesquisadores e, consequentemente, em nosso corpo-pesquisa.  Tal investigação experiencial nos sensibilizou quanto ao contexto das relações produzidas em nossos corpos enquanto plurais e diferentes entre si, na nossa realidade de universidade pública federal, habitando os embates e paradoxos da produção das corporeidades em suas multiplicidades e singularidades, fazendo-nos debruçar sobre alguns recortes possíveis dos corpos. Por ora, os corpos negros.

 

Fizemos esse recorte por nos depararmos concretamente com a necessidade de reconhecermos as nossas peles como uma das superfícies sensíveis dos corpos em relação a serem trabalhadas pela pesquisa, sendo tocados por novos sentidos da célebre frase de Paul Valéry quando diz que “O mais profundo é a pele”. Percebemos com isso, uma exigência de afinar ainda mais a nossa interlocução com a aposta contra-hegemônica do nosso fazer pesquisa, passando a nos perguntar como se dá a formação de um corpo clínico sensível numa faculdade pública de psicologia no Brasil. Trazendo novas texturas para o que se passa na superfície intensiva e material dos corpos, focamos em nos observar e nos compreender como um grupo misto etnico-racialmente e aprofundar os desdobramentos disso (ainda não entrando diretamente na interseccionalidade de gênero e classe). Será que nosso corpo-clínico sensível se transfigura da mesma forma? O estudo da racialidade, entender a branquitude e a negritude tem se tornado essencial quando nos debruçamos a pensar o corpo de maneira paradoxalmente concreta e intensiva. Em algum momento passamos a “reparar”: por que falar dos corpos negros como um “recorte” se estes são a maioria do nosso país? Dentro da academia, o tecido hegemônico do conhecimento científico ainda universaliza os corpos como brancos, evidenciando a ideia de sujeito ancorada por um “regime antropo-falo-ego-logo-cêntrico” (ROLNIK, 2015), fazendo com que a atitude de debruçarmo-nos sobre outros saberes e outros corpos que se diferenciam disso seja “fora da curva”, seja uma exceção, um recorte.

 

Entendemos também que esse recorte é um recorte pelo avesso dos corpos, que afirma e deseja um conhecimento que se faz à contrapelo: aprendemos a buscar as linhas de pensamento e sensibilidade que só são reveladas no arrepio dos pelos que se levantam no sentido contrário ao penteado que criava uma imagem lisa e uniforme. Estudar raça e entender nossos territórios e marcas se torna primordial para uma prática clínica ético-estético-política no país onde vivemos. É um recorte ao contrário, pois a maioria da população brasileira é autodeclarada negra. Compreendido isso, colocarmo-nos intensivamente no contato com essa questão através da arte e das nossas próprias caminhadas foi o primeiro fio que tomamos a partir da nossa volta como um grupo que se debruça sobre os corpos sutis (a partir disso então, passamos a nomear o nosso grupo de pesquisa como CorpoSSutiS). Entender as sutilezas e singularidades de cada corpo para que possamos abarcar intimamente aquilo que nos propormos: a formação de corpoS clinicoS sensíveiS, podendo enfatizar o “S” do plural de forma a ressaltar as singularidades dos corpos.

 

A estesia ofertada a nós pela arte, como condição exprimível e sensível do corpo que, no seu encontro com o mundo, nos permite acessar outros planos de consistência, passou a compor nosso novo percurso, além da escolha de novos referenciais bibliográficos. Dessa forma, passamos a utilizar a ida a eventos de arte e discussões acadêmicas com a temática da negritude como ferramenta metodológica da nossa pesquisa, nos aproximando das histórias dos corpos negros e suas expressões, por acreditar na formação de corpoS clínicos sutis e na potência da criação de novas narrativas e subjetividades. É nesse giro que uma de nossas caminhadas através e a partir da arte se derivou para o Festival Sesc EntreDança, no Rio de Janeiro, que teve como protagonismo nessa edição de 2019 o corpo negro, com co-curadoria da artista, pesquisadora e docente Carmen Luz. Numa parceria de gratuidade das entradas do nosso grupo de pesquisa com a curadoria do festival, alguns dos espetáculos seguidos de debates com os artistas criadores e intérpretes compuseram as bases dos nossos novos dispositivos metodológicos.

 

Mas como um festival de dança nos ajuda a pensar a clínica?

 

Na aproximação com a arte, buscamos habitar o intervalo onde o devir-clínico da dança e o devir-dança da clínica possam ganhar inteligibilidade, ativando a dimensão inventiva da produção de novas corporeidades. A arte contemporânea é privilegiada nessa ponte com a abordagem transdisciplinar da clínica porque ao mesmo tempo que as mesmas fazem/dizem/agem com as mais variadas formas de criação, estas, incisivamente, pretendem e fazem uma criação de desvios, abrindo para o campo das novas possibilidades. É importante ressaltar também, que estamos atuando no campo das intensidades, das sensações, das emoções, e essas não são expressas apenas pelo verbo falado. Damos importância ao encontro sensível dos corpos e ao que é dado ali, no acontecimento sutil. A dimensão estética da arte também sendo utilizada para chegar nessas intensidades de maneira porosa, intervém numa certa política das sensibilidades. A dança, nesse sentido, pode ser tomada como dispositivo que dá força a essas intensidades não verbais e que nos ajudam a criar redes afetivas na clínica. Na abertura do plano da clínica às interferências estéticas da arte são mobilizados os regimes de afetação, numa convocação para estar disposto a se encontrar com o outro (mesmo que em nós mesmos) e a se marcar pelas fricções entre os corpos. Uma clínica que se dá no acontecimento e que não se apoia em neutralidade; uma dança que se dá no limiar entre/com dois. É ultrapassar a si mesmo e criar, juntos, no coletivo, um mundo possível. É sempre estar no caminho de compreender o outro e compreendendo o outro, poder olhar para si mesmo e se experimentar, renovando-se (RESENDE et al, 2019).

 

A prática em Psicologia que nos convoca diz de uma abertura, de uma porosidade às forças da alteridade em nós e no mundo, cuja demanda de criatividade e de prudência nos engajará a dançar para fora dos palcos esquadrinhados de nosso campo de formação. Nesse sentido empreendemos um outramento, um estranhamento de nossas marcas e marcações; a qualidade vibrátil que se inscreve coloca questões às nossas raízes e faz com que nos movimentemos a partir de outros referenciais. Ter um festival de dança com o protagonismo de artistas negros em cena como um dispositivo de sensibilização, foi uma oportunidade de catalisar nossa pesquisa a uma abertura porosa e coletiva às novas questões que estávamos descortinando e seguimos enfrentando. Conhecer obras artísticas com ampla diversidade de linguagens estéticas, com narrativas e modos de expressar corpos negros singulares, nos ofertou um cenário estético e crítico ainda não vislumbrada pelo nosso corpo-pesquisa até então.

 

De acordo com a edição comemorativa dos 30 anos da Cia. Rubens Barbot, a dança de um corpo-nosso-brasileiro encarna um saber corporal que inclui cultura e história e dispara afetivamente em nós a discussão sobre a relação do corpo dançante com sua história, com as condições das marcas de injustiça cognitiva e social. A dança produz subjetividades que vão de encontro ao processo de dominação, denunciando os estereótipos, estigmas e desrespeito cultural sobre os corpos não reconhecidos em seu potencial artístico, seu saber corporal e sua memória ancestral. O artista negro, na linguagem da dança inventa um caminho novo à libertação da realidade opressora. Tomamos aqui o saber corporal, a corporalidade, a cultura gestual como prática de pesquisa que viabiliza a experimentação de outros caminhos para a reformulação da arte assim como a reformulação de um certo entendimento de sentir-com na prática clínica.

 

Assim, acreditamos que a partir dos espetáculos do festival pudemos nos conectar com os corpos que estávamos querendo aprender com e sentir com. Quais são as sutilezas que esses corpos expressam? Buscando responder a essa e algumas outras perguntas, o grupo foi se dividindo por dia de espetáculo, registrando e compartilhando o que assistiu. Escrevemos relatos intensivos sobre a experiência de afetação com os espetáculos vistos, evitando interpretar “psicologicamente” sentidos ocultos ou pretender nos tornar novos críticos de dança; mas sim, de forma a investigar no campo estético-político a formação de um corpo-clínico através das ressonâncias sensíveis com o EntreDança.

 

Ainda reconhecendo que estamos em um momento inicial de nossas análises, apresentamos na sequência alguns desses relatos:

 

“Grupo Jongo de Pinheiral (RJ)

Este grupo se apresentou na inauguração das atividades do mês de abril e junho.

 

Disseram que a tradição vem sendo mantida por muito tempo (nunca interrompida desde a época da escravização). E também produzem os tambores de forma artesanal mantendo o jeito de produzir igual aos seus antepassados escravizados e são tambores de 40 anos. Pinheiral é uma cidade logo depois da serra das araras. Onde já existiu uma das maiores fazendas de café e, por isso, a tradição e cultura do jongo foi presente desde então.

 

Foi muito marcante a presença de pelo menos três gerações ali. E o fato de ser uma tradição tão preservada é quase um milagre dentro do Brasil. Onde em quase todos os espaços de insurgência negra se discute o resgate, eles, do pinheiral, não precisam disso porque conseguiram resistir. Possuem uma cultura própria a ser preservada e admirada.

 

Encruzilhada: Grupo Fragmento Urbano (SP)

Esse grupo não pude assistir ao espetáculo de dança deles, porém achei que na abertura trouxeram questões para a discussão que pensei ser muito relevante. Por tanto, decidi trazer a história deles mesmo assim.

 

Começaram contando como foi crescer na periferia de São Paulo. Falando sobre a diversidade de culturas, sotaques e músicas. Diferentes estilos tocando ao mesmo tempo como estrangeiras (rap, hip hop e etc), nordestinas (como axé e forró) e outras. O contato com todas essas singularidades resultou em uma cultura de convívio. Onde, os moradores cuidam um do outro.

 

Depois, se atenta a necessidade de um enfrentamento para o estigma de ser da periferia. Poder dizer hoje, com orgulho que é de Guaianazes (extrema ZL) é resultado de um processo muito árduo de pertencimento e auto reconhecimento. Para isso, foi necessária uma capacidade de transformação, ressignificação a fim de produzir uma marca própria e “genuinamente” brasileira e periférica.

 

Citou por exemplo, a cultura estadunidense dominadora e que, de certa forma, colonizadora. Pois, apesar de ser preta (por isso a identificação), ainda é estrangeira. Mas quando chega na “quebrada” ela já sai modificada, marcada e reproduzida de forma diferente e particularizada. Trouxeram também o reconhecimento de que as possibilidades deles conseguirem fazer isso hoje foi por uma luta antiga de pessoas que chegaram antes deles. De bailes que eram feitos e frequentados pelos pais que preservam uma cultura que hoje é expandida.

 

Essa discussão sobre a cultura norte americana ser ou não ser mais uma influência colonizadora trouxe a ideia de ENCRUZILHADA. E essa ideia foi trazida algumas vezes com algo muito presente no corpo negro dentro da dança.

 

Como se inserir em um meio repleto de influências não brasileiras e muito menos não africanas? A dança tradicional ainda é completamente europeia mesmo nas modalidades menos clássicas como o contemporâneo. E ainda quando se sai um pouco da Europa temos a forte influência estadunidense que, apesar de ser mais diversa e muitas vezes preta, ainda sim não é brasileira.

 

Modalidades como o frevo (criado na favela de Recife), jongo, funk e outras não incluídas de forma satisfatória em cursos de graduação em dança. E são brasilidades que quase sempre vem das diferentes populações negras do Brasil que estão resistindo desde muito tempo. Como sobreviver nesse mundo? São encruzilhadas. Decisões difíceis de se tomar que geram a NECESSIDADE DE ESTRATÉGIAS de modos de vida. Daí a ressignificação, a marca própria e particular que cada um traz ao dançar e ao criar seus movimentos.

 

Corredeira: Nave Gris (SP)

Várias questões ela coloca aqui que me chamam atenção. Uma delas é a diáspora africana. Qual o significado disso para uma subjetividade. Diáspora Africana é a denominação dada a um fenômeno histórico ocorrido nos países africanos, caracterizado pela imigração forçada da população africana a países colonizadores. Já chegando no país em que a condição de escravo seria IMPOSTA, FORÇADA ele já não possuía mais identidade. O impacto disso para a subjetividade é abordada na dança dela. Onde ela resgata influências de origem do congo e angola.

 

Essa retomada se tornou algo frequente, não só nessa dança. A ideia de retorno para algo que estava perdido e este modificando o presente permitindo a criação de algo novo e com muita importância para a subjetividade do sujeito. Procurando os seus antepassados de certa forma ela se encontra, se cria e se renova. Imagens que casam muito com o elemento água, como trouxe a dança dela: elemento líquido que se espalha e corre limpando e levando consigo coisas pra onde quer que ela escorra. Ao assistir senti a exaustão e trabalho de chegar a essa estratégia de vida. São muitos esforços e muitos achegamentos cautelosos que se mostram nos movimentos. Como se chega em uma fluidez no final como se tudo se juntasse em algo grande e poderoso.

 

Vozes de Nós da Companhia Babalakina (RJ)

Nesta apresentação vem forte a presença de vozes de diferentes mulheres e da própria Marielle Franco. Uma coletânea de narrativas que trazem a multi referências da artista para criar a performance. E nisso em que aposta: na diversidade do “ser mulher preta”. Marielle Franco um exemplo na política. Ela mesma um exemplo na dança e sendo mãe também. Outras vozes de referências da religião dela ou companheiras. Enfim, toda uma diversidade afim de homenagear as pessoas que formaram sua vida. E ainda, incluindo referências fortes da religião de matriz africana. Trazendo os Orixás também como representantes de sua ancestralidade. Ou seja, uma subjetivação rica no sentido de ter muito apoio e multiplicidade. São distintas por que ao se reconhecer semelhantes, se fortalecem e se apoiam a fim de construir o que é delas unicamente.

 

A-Vós da Nave Gris Companhia Cênica

Este espetáculo foi um dos que eu mais gostei. Se trata de uma homenagem aos avós dos artistas. Tive a oportunidade de conversar com os três dançarinos depois e foi lindo de ouvir a trajetória deles. Começando pelo fato que cada um era diferente do outro. E como na pesquisa para montar a coreografia eles escolheram apostar nessas diferenças. Foram visitar o lugar em que viveram suas infâncias: foram para Franca (interior de SP), interior de Minas Gerais e Mato Grosso. E expressaram como isso foi forte para o grupo esse movimento de revisitação das suas origens para o resgate da sua identificação como pessoa.

 

Dentro dessas diferenças que eles foram se deparando conseguiram montar um espetáculo lindo e dedicado aos avós deles.

 

Dança Naná e outras Coreografias da Companhia Rubens Barbot (RJ)

Nesta foram três conjuntos apresentados seguidamente. E cada um me trouxe impactos diferentes. A coreografia “A Nega” é interpretada por um dançarino com uma saia. Ele se utiliza de muitas expressões de dor, tristeza, alegria, energia e desespero. Tudo misturado em uma dança muito agitada. Achei especial trazer uma certa feminilidade em um corpo masculino e preto. Um jogo de quebras de expectativas que se repetiram também nas outras danças que seguiram. As três tiveram grande presença da dança negra contemporânea sendo que a apresentação “Nem todos somos patinhos feios” faz o questionamento citado no começo deste texto: satirizam a rejeição da dança negra pela “crítica elitista”.

 

Agô – Um solo de Cristina Moura (RJ)

Com certeza, essa foi uma das apresentações mais impactantes. A artista começa questionando o que o público espera que aconteça ali. Dando a entender que o tema do evento induz alguma ideia sobre o que ela deveria ser ou não ser como mulher negra. E também traz muitas referências diferentes. Tocam áudios em inglês de pessoas que lutaram contra a segregação racial norte americana. Projetou pinturas de artistas africanos e citaram partes de livros.

 

Muitas reflexões foram provocadas por ela que eu sinceramente não consigo dizer sobre ainda. Por isso escolhi apresentar essa artista aqui, porém não consegui desenvolver muito sobre sua dança.”  (Júlia Craveiro)

 

“A peça tinha começado pelo meio ou pelo fim, mas não pelo seu começo. Uma pessoa, sombra, movimento, corria pelo centro no escuro. Conseguíamos enxergá-la? O que é ver um corpo? Quantos corpos não são vistos? Muitos conversavam, riam, e a peça já havia começado. Estranhamentos que não me deixavam prestar atenção porque queria que TODOS prestassem atenção. Prestar atenção nos movimentos e caminhos daquele corpo, escutar e acolher cada passo. Caminhar junto com os olhos. “O que que vocês querem de mim?” Uma máscara sussurrava em movimentos bruscos e robóticos de carne. “hein?” Se movimentava mais para frente, apontando para nós, nos enfrentando. Aquele corpo estava nos intimidando? Senti medo, não escondo. Aquela máscara não me deixava entender o rosto daquele corpo e eu queria ver os seus olhos, as suas expressões. Me deu medo porque não estava conseguindo identificá-lo como humano, às vezes. Seria de propósito? Afinal, estávamos numa peça que fazia parte de um evento que falava de negritude. Como que esses corpos são vistos pela sociedade? Ou eram vistos? Ela traçou em seus movimentos alguns estereótipos do que “é ser um corpo negro” na sociedade e todos bateram como um soco no estômago. “Qual é o seu papel?” Perguntava enquanto entregava para a gente pedaços de papéis. Para mim, esse foi o ápice da peça que foi onde eu pude perceber que falar de negritude é também falar do papel da branquitude nisso que os corpos pretos passam. O quão importante também é se responsabilizar e querer construir junto. É importante também saber que o corpo negro não é só esse de todos os estereótipos colocados, mas também é um corpo que precisa de atenção, precisa de carinho, precisa de um abraço, que sorri, que chora, que precisa de descanso como todos os outros, e que precisa estar no coletivo.” (Julia Câmara)

 

Todas essas apresentações e discussões estão em processo de elaboração, compondo com as leituras de autoras e autores negrxs e não-brancos evidenciando a importância do contato com narrativas de vida da população negra. Iniciamos a nova bibliografia com os livros “Pensar Nagô” do Muniz Sodré; “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” do Ailton Krenak; Imagens para Alguma Paisagem” da Companhia Rubens Barbot e com a organização de Claudia Ramalho -essa, em especial, resultante da experiência no festival- ; “Crítica da Razão Negra” do Achille Mbembe; “Memórias da Plantação” de Grada Kilomba e “Pele Negra, Máscaras Brancas” de Frantz Fanon, “Ensinando a transgredir: A educação como prática de liberdade” de bell hooks. Pensamos como a criação artística pode ser uma via de recriação de vida de uma população que tem que conviver constantemente com a opressão de uma sociedade racista. “Porque, não é sobre abandonar o balé clássico (ou sim?) mas, sim, criar um contexto de dança onde a cultura negra não seja excluída ou subjugada, um tema, um recorte”. Essa posição de subalternidade, porém, não é exclusiva do contexto da dança, obviamente. É mais um reflexo da estrutura da sociedade brasileira. Onde, seguimos colonizados também nos modos de produzir conhecimento e olhando para a Europa como referência única.

 

A proposta deste grupo de pesquisa tem sido estar presente em espaços que falem sobre o corpo negro em suas mais diversas singularidades e poder observar no corpo as estratégias criadas para a vida através das expressões artística e entendemos, essa pesquisa com o corpo, como uma atitude sensível de experimentar as afetações que as problemáticas políticas, a estética, a cultura, as discussões acerca e a partir da população negra como nossa metodologia de sensibilização. Um dos desdobramentos dessa reviravolta metodológica foi a criação de um evento em 17 de outubro de 2019, para passarmos um dia estendido entre conversas e experimentações com novos interlocutores artistas e psicólogos. “Com-torno das diferenças: quando as marcas corporais entram no jogo”, organizado pelo nosso grupo de pesquisa, teve como um de seus convidados a Cia. Kawin, como outras reverberações do EntreDança. Em uma palestra-performance, Anani Sanouvi e Christiane da Cunha, criadores do espetáculo Desenho apresentado no festival, compartilharam seus processos criativos com os saberes de culturas animistas e co-produziram questões instigantes num exercício coletivo de pensar o que se passa entre dança e clínica. Além disso, nos ofereceram experimentações com o ritmo como a energia vital por trás da realidade fractal que conecta o corpo à natureza, permitindo em meio a fragmentação cotidiana que nos reconheçamos como vibrações, pulsões e fluxos – como desenhos em devir.

 

Para nós, partindo de uma aposta transdisciplinar da clínica com a arte/dança, entendemos que as discussões ditas em palavras, ou as problemáticas dançadas, a beleza encantada de um corpo que dança suas marcas, sua história, em um mês inteiro de festival, nas suas mais variadas “corposições”, e posições políticas em meio às diferenças de um grupo dançarinos tão heterogêneo foi de grande importância também para encontrar o momento atual de nosso percurso enquanto pesquisadores. Levamos essa experiência como bagagem e potencial criador para seguirmos na investigação das nossas perguntas disparadoras da pesquisa: Como pensar a formação de corpoS-clínicoS sensíveis? e Como viver juntos?

 

Referências bibliográficas

EUGENIO, F.; FIADEIRO, J. Jogo das perguntas: o modo operativo “AND” e o viver juntos sem ideias. Fractal, Rev. Psicol., Niterói, v. 25, n. 2, maio/ago. 2013.

RESENDE, C. et al. Corposições entre o ver, o dizer e o agir. Fractal, Rev. Psicol., v. 29 – n. 2, p. 135-142, 2017. Dossiê Corporeidade.

RESENDE, C.; CÂMARA, J.; LOYOLA, L.; GUIMARÃES, V. Micropolíticas do sensível, corporeidade e clínica. Repertório, Salvador, ano 22, n. 32, p. 220-243, 2019.1

ROLNIK, S. A hora da micropolítica. Série Pandemia. São Paulo: N-1 Edições, 2015.