Entre frestas e espelhos quebrados – imaginações para o campo expandido da dança | por Luciane Ramos-Silva

Sobre

Borbulham nos espaços de experiências negras a invenção de formas artísticas que nascem de processos culturais autônomos onde o mercado e o Estado não são necessariamente os mediadores, e outros que gingam estrategicamente com as estruturas legitimadas de poder.  Artistas criam, inspiram e, por que não, educam suas gentes.

 

Nas artes da cena, existe um movimento poderoso de artistas negras e negros criando a contrapelo de uma engrenagem que atua como uma espécie de rolo compressor de desejos. E o desejo do subalterno representa perigo – por isso a compressão, o controle, a invisibilização. Entendendo movimento como prática social, cultural e política é importante notar, nestes tempos sombrios, que algumas danças têm construído, negociado e contrariado expectativas.

 

Nos últimos anos assistimos a uma expressiva escalada quantitativa e qualitativa das produções de danças protagonizadas por artistas negras e negros que fissuram tempo e espaço. São moveres que examinam a realidade a partir de atos criativos onde a pesquisa, a inventividade e os tensionamentos estão conectados à experiência e  geram pensamentos críticos sobre a cultura. São tessituras e deslocamentos de linguagens, repertórios focados em poéticas que recriam mundos. Do trivial ao profundo, cruzam-se fronteiras de idade, sexualidade, gênero, racialidades e outros tópicos de relevância contemporânea.

 

Quilombos urbanos e mármores em ruínas

 

Se por um lado temos uma evidente pluralidade estética, existe um olhar ainda bruto quando acompanhamos a apreciação das danças negras pela crítica hegemônica da dança, que não (re)conhece a contemporaneidade das danças afrodiaspóricas e mesmo assim narra-as à distância, sem teor ou  profundidade. Quando muito, tropeçam em análises à luz de conceitos eurocentrados, desenrolando escritas cheias de estigmas coloniais, reduzindo o exame à descrições adjetivadas com “é belo” ou “é forte”, reforçando supostas visceralidades inatas ou ainda entendendo tais danças apenas como representações. As danças negras não são representações… são ações.  Salvo raras exceções, tais críticas não analisam técnica, dramaturgia, poética e tampouco percebem os gestos radicais ali presentes… para perceber esses gestos é preciso conhecer a história, o percurso negro-brasileiro, o Brasil. É preciso olhar para o fundo espelho brasileiro de maneira coerente.

 

Se a experiência negra é uma estrada de encruzilhadas, os artistas e grupos lidam com esses fluxos e contradições. Pesquisam linguagens (e linguagem é lugar de luta), produzem festivais, escrevem, editoram e lançam livros, organizam redes de discussão para ampliar repertórios críticos e dialogam com mundos. Ironicamente, e entendendo ironia como um fundamento negro, as danças contemporâneas, tradicionais e aquelas que não aceitam rótulos epistemológicos, movimentam nosso chão reelaborando africanidades e produzindo discursos que são, a um só tempo, combustível para a continuidade. Há que se lembrar que a relação desses artistas com as africanidades e a discussão sobre a recusa patente da existência negra é inquieta. Ela cutuca a carne, gera movimento e complexidades. No seio próprio dos artistas há maneiras muito diferentes e contrastantes em lidar com essas danças críticas. E como seria diferente se as experiências são tão plurais? Se pensarmos as relações de protagonistas negras no Rio e em São Paulo veremos ricas distinções em termos estéticos, epistemológicos e argumentativos. E se pensarmos o Brasil em sua intensa dimensão continental?

 

Em contínua travessia

 

No tempo presente de violenta contenção dos corpos negros a agência dessas danças é dendê que faz arder alguns estômagos desavisados. Tem graça, raiva e eletricidade. Tem abstrações e pedagogias… Tem tudo isso, e o restante…   você tem que imaginar!

 

A curadoria e co-curadoria do EntreDança provoca-nos a pensar sobre os pulsos de vida estratégicos gerados pelas coletividades negras, amplificando maneiras de existir e compartilhar sensibilidades.