Companhia Rubens Barbot – Teatro de Dança

Sobre

Primeira Parte

Imagens de Outras Paisagens

Imagem I

No final da década dos anos sessenta, da rodoviária da cidade de Porto Alegre (RS) partia um ônibus da empresa General Urquiza tendo como destino Buenos Aires, capital da República da Argentina.

 

Dentro do ônibus, entre os passageiros estava Rubens Barbosa dos Santos, cheio sonhos, esperanças, incertezas, dúvidas, mas sobretudo sonhos, muitos sonhos e muita coragem numa longa, cansativa e interminável viagem.

 

Vinte e oito horas depois, Buenos Aires iluminada que surpreenderia Rubens Barbosa dos Santos, principalmente a cor verde dos semáforos e/ou sinais de trânsito.

 

Imagem II

Com sua mala, Rubens desce de um táxi na rua Paraguai, cheia de edifícios no bairro portenho de Palermo. Sobe pelo elevador, toca a campainha, abre-se a porta e aparece o bailarino, também gaúcho, Tony Abbot com uma expressão de surpresa, espanto e felicidade. E a pergunta que escapou: – Você aqui?

 

– Vim para estudar dança, as aulas não começam amanhã?

 

Imagem III

O piano de Carola soava limpo e claro como a sala de aula num andar do anexo do Teatro Cervantes.

 

Vazia, a sala recebe o Rubens, já com malha, sapatilhas, meias e casaco de lã para manter o corpo aquecido. Luz, muita luz na sala branca onde aos poucos foram chegando outros jovens, argentinos, brancos e alguns de pele de cor beje que dizia claramente que eram de índios do norte argentino.

 

A entrada da mestra Ilse Vidma foi precedida de um profundo e tenebroso silêncio.

 

Poucas palavras, alguns conselhos, e normas de disciplina, Carola arremetendo no seu piano, dona Ilse iniciava a primeira aula na escola para homens do Ballet Contemporâneo de Buenos Aires, dirigido por Oscar Araiz.

 

Imagem IV

Buenos Aires, bela Buenos Aires que se misturava com saudades de Porto Alegre e Rio Grande (RS), cidade onde se criou na sua economicamente pobre família e ao mesmo tempo começava a descobrir e amar.

 

Sequências de imagens na escola

Aulas diárias com Ilse Vidma, técnica clássica. Aulas das mais variadas técnicas distribuídas ao longo da semana. Freddy Romero, técnica Horton. Ana Maria Stekelman, técnica Martha Graham. Doris Schotellius, técnica clássica. Oscar Araiz, contemporâneo (Dore Hoyer e Mery Vidman).

 

Imagem V

Na grande sala de ensaios do Ballet Contemporâneo de Buenos Aires desenvolvem-se os ensaios da próxima remontagem da Companhia, Romeu e Julieta, de Prokofiev, com figurino de Renata  Schussheim. Os alunos, todos em profundo silêncio, assistem. Assistir aos ensaios fazia parte do currículo da escola. O aluno brasileiro assombrado com o chão da sala, que tinha a mesma inclinação do palco do Teatro Coliseo.

 

Imagem VI

Entre aulas, ensaios, aulas avulsas e gratuitas conseguidas com professores fora da escola, assistindo a espetáculos de dança das mais variadas técnicas e espetáculos clássicos com o Ballet del Teatro Colón no próprio teatro, e a estreia de Sinfonia, com música de Stokhousen, do Ballet Contemporáneo de Buenos Aires, no Teatro Coliseo, programa que incluía Halo com música de Albinoni e ambas com coreografia de Araiz, termina o primeiro ano letivo.

 

Imagem VII

Um carro Fiat 600, branco, dentro do modelo pequeno de carro estavam Tony Abott (bailarino que hospedou e direcionou os estudos em Buenos Aires), seu parceiro (na época o parceiro era chamado de “affaire”), Oscar Rodrigues e Rubens Barbosa dos Santos, que partem de Buenos Aires rumo ao Rio Grande do Sul.

 

Nesse pequeno carro atravessaram toda a costa do Uruguai e a costa do Sul, indo até Rio Grande, e desde a cidade da fronteira Chuí, pelas praias, até Cassino.

 

Curtiram o carnaval em Porto Alegre e, ao retornar pelo mesmo caminho, Rubens se deteve a olhar o restante do carnaval uruguaio; foi a primeira vez que viu muitos corpos negros fora do Brasil, numa manifestação artística e cultural.

 

Imagem VIII

Chegada a Buenos Aires, logo o início das aulas, e agora com seu documento de estudante que lhe permitiria trabalhar.

Reiniciam os ensaios da remontagem de Romeu e Julieta.

 

Imagem IX

Na produção do Ballet, um novo contratado, Jorge Aníbal Etchemendi Larsen que logo seria Gatto Larsen, substituindo o fotógrafo oficial da Companhia, Hector Boeto.

 

Imagem X

Sequência de imagens de atividades em Buenos Aires. Figuração na ópera Aida, de Verdi, no Teatro Colón. Teste para a primeira montagem em Buenos Aires do musical Hair. Assiste a vários espetáculos do gênero revista com grandes vedetes nacionais. Assiste a Roberto Carlos no Teatro Ópera. Foi convidado para fazer striptease no luxuoso cabaret Hidrogeno, no bairro de San Telmo. Ousado, aceita e é um sucesso na programação da casa, e fica durante oito meses sendo o artista mais bem pago da casa. Estuda castelhano. Dança num show no Sheraton Hotel e num espetáculo afro, dirigido por um coreógrafo uruguaio, no Plaza Hotel, de Bs.As. É convidado pelo diretor teatral Sany Santángelo para participar da montagem que faria no ano seguinte. Num ensaio de iluminação durante uma noite da remontagem de Romeu e Julieta, em que o fotógrafo estava trabalhando e Rubens assistindo sentado numa plateia vazia, ocupada apenas pelos produtores e por ele próprio, que estava tecendo suas meias, e onde as palavras que se ouviam eram as vozes de Araiz e Susana Otero, assistente de iluminação, num pequeno intervalo, Rubens e Gatto se conhecem. Gatto puxa a carteira de cigarros no corredor e oferece um. Rubens apenas diz: – Não fumo, gracias.

 

Estreia de Romeu e Julieta. Sucesso. Grande sucesso. Vai acabando o ano. É selecionado para a montagem de Hair.

 

Imagem XI

Um dia qualquer de dezembro, Rubens sai do supermercado da rua Mansilla, no bairro de Palermo e Gatto Larsen sai de seu apartamento na rua Mansilla. Se encontram e Rubens apenas diz: – Estou indo para Brasil de férias amanhã.

 

Imagem XII

Terceiro ano letivo. Inicia com muita atividade. Ensaiando Hair, oficialmente iniciam os ensaios da peça teatral Mea Culpa, sob direção de Sany Santángelo, no Centro Cultural San Martín, na sala Casacuberta. Estreia Hair.

 

No Ballet, começa o desenho da próxima montagem, La Reina de Hielo, com trilha sonora com músicas de Tchaicovsky sobre um conto de Andersen. Figurinos de Renata Schussheim. Os alunos serão requisitados para esta superprodução.

 

Imagem XIII

Sequências de imagens. Completamente entrosado em Buenos Aires e ocupando um lugar no mercado artístico portenho, é convidado e aceita coreografar o programa musical  para a juventude chamado Volt Tops, no Canal 13, que se transforma no grande sucesso das tardes de sábado no citado canal. Continua estudando dança. Morando junto com Gatto Larsen no Bairro Norte a duas quadras da Recoleta. Buenos Aires fervia artisticamente. Nas artes plásticas, teatro, dança, happening, a contracultura tomando a cidade por meio da juventude. Buenos Aires descobre Caetano Veloso, Gal Costa, Fela Ramsome  (depois Fela Cuti), o rock pesado, noites brilhantes.

 

Deixa o elenco de Hair três meses depois para se dedicar à temporada de Mea Culpa, que ocupará seus próximos seis meses de terça a domingo. A montagem reunia grandes atores argentinos. Alicia Berdasaga, Carlos Estrada e Ana Maria Pichio, entre outros. Começam os ensaios do ballet La Reina de Hielo. Rubens aceita o trabalho de bordar o figurino do ballet que eram todos brancos, de tule com saias e sobressaias (4) e calças e sobrecalças (4), cada um para um elenco de 36 integrantes. Todo bordado com lantejoulas brancas leitosas. O resultado desse trabalho fez com que a bailarina e atriz Esther Ferrando encomende a ele os bordados do figurino do seu espetáculo Permitame Moverme, sucesso durante seis anos em cartaz.

 

Estreia La Reina de Hielo no Teatro Coliseo, sendo a segunda temporada no Teatro San Martín, sala Martín Coronado. Termina o ano e Buenos Aires percebe que o ambiente político lentamente vai mudando.

 

Imagem XIV

Sequência de cenas – Antes de terminar o ano, no mês de dezembro os atores, escritores e diretores Carlos Perciavale e Antonio Gassalla convidam Rubens para fazer parte do elenco de um espetáculo de humor livremente baseado na última sequência do filme Oito e Meio, de Federico Fellini. Com um elenco que misturava gerações – uma dupla de rock folk, um cantora de tango, outra cantora de boleros, a atriz e bailarina Esther Ferrando, o travesti Lola del Puerto, a jovem performer Ludovika Lo Esquirru, o trio de jazz Pablo Ziegler, Gatto Larsen fazendo o papel de assistente, o prório Carlos Perciavale em cena, todos com delirante figurino de Renata Schussheim e Antônio Gassalla e Oscar Araiz coreografando exclusivamente para Rubens e Esther uma dança engraçadíssima intitulada Maracas –, teve estreia no mês de janeiro de 1973 no café-concerto Rugantino e ficou em cartaz com grande sucesso de público até fim de junho.

 

A esta altura, um governo municipal peronista havia terminado com o Ballet Contemporáneo da Cidade de Buenos Aires e por consequência a escola. O sonho estava acabando, a contracultura foi se desmontando, muitos profissionais do Ballet vieram para Belo Horizonte trabalhar com o Grupo Corpo como professores e bailarinos na preparação do espetáculo Maria Maria. Incluindo o coreografo Oscar Araiz, a figurinista Renata Schussheim, Susana Otero. Buenos Aires mudava, Argentina mudava, e que mais tarde acabaria na grande ditadura militar que deixou milhares de desaparecidos, mortos, exilados e um grande trauma para o povo que não sai da cabeça, do corpo de toda a população.

 

Rubens Santos, o nome de Barbot na época, estava com 24 anos e Gatto, com 25. O brilho de Buenos Aires tinha acabado, os artistas com bocas e corpos fechados, as casas de espetáculos vigiadas pelo exército e/ou polícia. Qualquer um, estando a menos de cem metros da sua residência, era preso para averiguação de antecedentes. Rubens Santos e Jorge Larsen foram presos na esquina do apartamento onde moravam quando voltavam da estreia do filme Os Palhaços, de Fellini. Depois de sete dias, foram soltos e começaram os preparativos para a viagem.

 

Desocuparam o apartamento, venderam o que era para vender, deram o que era para dar e embarcaram no ônibus da Companhia General Urquiza rumo a Porto Alegre, de onde seguiriam para Rio Grande. O sonho tinha acabado. Chegava a incerteza. Era dezembro de 1974.

 

Intermezzo

 

Rio Grande – dezembro – 1974

Para Gatto Larsen, outro país, outra cidade, outra família. Um choque cultural. Chegou num bairro pobre e negro. Distante 7 ou 8 quadras, um terreiro de batuque dedicado a Xangô (o candomblé naquela cidade), na esquina da esquerda, o Bloco Carnavalesco Bafo da Onça. Surpreso com as relações familiares, relações entre a vizinhança, com a quantidade de negros e negras que este país tinha e nunca nos foi ensinado na Argentina. Logo, entre todas a intrigas internas foi visitar uma prestigiada ialorixá num bairro mais pobre ainda, mais negro ainda e entra num terreiro de estuque e chão de terra onde conhece a famosa Tia Idé. O contato mais próximo, naquela época, com a África. Lá ficou sabendo que era filho de Ogum e de Yemanjá e que em breve faria uma longa viagem.

 

Rubens Santos volta ao lar, mas agora com outro olhar. Um retorno com mala não muito grande, algum presente e com uma bagagem intelectual e de conhecimento muito grande e percebe que precisaria de muito tempo para entender, catalogar, estudar e pensar como usaria seu novo e profundo patrimônio.

 

Um roda de batuque na casa do seu pai de santo, Seu João Oliveira filho de Xangó, muita saudade do seu avô de santo oanzinho do Bará. Reencontro com seus amigos da pré e da própria adolescência. Praia, casamento de uma irmã com uma festa de três dias na casa dos pais dele, onde teve o primeiro toque que o fez começar a prestar atenção nas festas nos fundos dos quintais da sua família. A cidade de Rio Grande que nunca sairia do seu coração, do seu pensamento e principalmente da sua alma. As calmas noites de lua cheia pescando camarão, a mãe, dona Cirila Barbosa e o pai, Dom José Maria Santos. Quantas coisas guardadas no baú das lembranças e formação de uma cultura.

 

O carnaval, os ensaios das escolas, e sempre nas ruas de 21 até 24 horas. Império Serrano, a escola do seu coração, As Mariquitas, sua rival, os bailes nos clubes de negros Braço e Braço (o preferido) e Estrela de Oriente (o mais metido).

 

Rapidamente, mesmo na cidade onde o tempo é lento, passaram-se sete meses e a previsão da Tia Idê se tornava realidade. Rubens Santos e Gatto Larsen viajaram para o Rio de Janeiro. Uma longa viagem. De Rio Grande para o Rio de Janeiro.

 

Rio de Janeiro 1975

Rio de Janeiro, Lapa, passaram sete dias e sete noites. Estranha a Lapa. Copacabana e depois a rua Mena Barreto, em Botafogo. Ali, alugaram um quarto numa pensão. Duas semanas depois, os dois brigam e Rubens volta para Porto  Alegre. Gatto fica na Cidade Maravilhosa.

 

Passaram-se cinco anos e neles Rubens ministrou algumas aulas, trabalhou para carnaval e foi pesquisando corpos, expressões dos corpos, imagens dos corpos. Foi a várias casas de batuque e umbanda e festas populares no sul do sul do país.

 

Por sua vez, Gatto trabalhou muito com fotografia e para fotógrafos e conheceu grandes personalidades. Celso Nunes (diretor de teatro), Ruy Guerra (diretor de cinema), Ferreira Gullar (poeta e escritor), Wilton Montenegro (fotógrafo, artista visual e intelectual), Elis Regina, Ismael Ivo, entre muitos outros.

 

Conhece São Luís do Maranhão, Salvador, São Paulo, Belo Horizonte, Ouro Preto. Retorna para a Argentina em julho de 1979 e vem ao Brasil decidido a ficar em 1980.

 

Segunda Parte

Imagens para Outras Paisagens

 

Imagem XV

Areia escura, mar calmo, praia larga e longa. Duas ou três barracas. Acampamento de verão de Rubens e alguns amigos. Gatto chega de bicicleta. Rubens, surpreso. Como você me encontrou? Ao que Gatto responde: – Tua mãe me disse, vim para dizer que durante estes cinco anos andei te procurando em outras pessoas. Acho que é com nós mesmos.

 

Imagem XVI

Selada a paz, a parceria, a cumplicidade de união, carinho e afeto. Gatto, produtor – Rubens, coreógrafo e bailarino. Montaram um espaço chamado Dansarte. Aulas, Rubens pesquisa movimentos, gesto, vendo e fotografando trabalhadores negros trabalhando com trabalhadores brancos, ambos fazendo o mesmo serviço. A movimentação do negro sempre era diferente da movimentação do branco, mesmo jogando tijolos do chão para o andaime. Assim começou a pesquisa dos movimentos, gestos e imagens surgidas dos corpos negros.

 

Imagem XVII

Essas descobertas começaram a ser aplicadas numa aula específica e montaram pequenos trabalhos que foram convidados para a Oficina de Dança de Salvador, BA.

 

Imagem XVIII

Salvador 81 foi a virada de mesa do Rubens. Voltou e mandou todos os alunos embora. Ficou com os cúmplices da ideia e montou um espetáculo chamado Blue Jeans (1981). Na sequência, montou Para Não Dançar (nas mãos dos outros), 1983 e em Julho de 1984 desembarcavam, Rubens Santos e Gatto Larsen, em Porto Alegre. Ali seria criada a dupla criativa. Em 1985, estreia ABSTRAC, um primeiro espetáculo solo. Boa temporada de público, mas a crítica nem apareceu. Nesse ano se encontra com o bailarino e comenta dos problemas com seu nome perante um cantor famoso em Rio Grande do Sul  com o mesmo nome. O bailarino que tinha feito sua carreira em Paris e possuía um grande sotaque e responde rapidamente: Barbot, Rubens Barbot. Em plena Avenida Independência em Porto Alegre, numa fria tarde de inverno, Rubens foi batizado por um bailarino. Dali em diante seria Rubens Barbot.

 

Imagem XIV

No ano seguinte, Rubens e Gatto estreiam o espetáculo Fredy Sorribas, multimídia, dança, teatro, poetas e músicos da periferia, artes plásticas, o grupo TAL de dança, que Rubens coreografava, jornalistas, vídeo e o músico profissional de Tangos e Tragédias. Nesse ano, a bailarina e coreógrafa alemã Susanne Linke visita Porto Alegre. Rubens (já) Barbot* se encreveu no workshop e a convidou para assistir ao trabalho. Ela foi. No dia seguinte, ao inciar a última aula, Susanne teceu grandes elogios, principalmente ao Rubens.

 

Na plateia do Theatro São Pedro, toda a crítica e jornalistas da área de cultura assistindo.

 

Na noite desse dia, todos os críticos foram assistir. Barbot ganhou o Prêmio Açorianos e grandes críticas. Pronto. Rubens Barbot era a estrela da dança contemporânea de Porto Alegre.

 

Imagem XX

Por conselho de Susanne Linke, em 1987 Barbot, se sentindo confiante, e Larsen investiram no projeto Só, Um Homen Só, em que Barbot foi pela primeira vez Barbot. Gatto fez a pesquisa sobre a solidão humana e trabalharam seis meses. No dia 30 de junho, estreia no Teatro de Câmara o espetáculo. Todos os críticos estavam na plateia. Foi uma noite memorável. As críticas surpreendentemente elogiosas. O crítico Cláudio Hemmann escreveu: “O dia em que se escreva a história da dança contemporânea de Porto Alegre, deverá ser escrita antes e depois de Rubens Barbot.”

 

Nesse dia nascia o estilo, a escrita coreográfica Rubens Barbot.

 

Imagens XXI

Sequência de cenas entre 1987 e 1989.

 

1987 – Prêmio Açorianos de coreografia e melhor espetáculo. Vai ao Festival Internacional de Corrientes, na Argentina, pela primeira vez. Se apresenta em Buenos Aires, grandes críticas do jornal La Nación. 1988 – Monta FEN (Cem Anos de Mentiras) sobre a abolição. Cria coreografias para outros grupos. Monta com Sônia Duro (produtora) e Raquel Pilger (atriz e produtora) o Festival Dança Porto Alegre. Em 1989 apresenta o espetáculo Áreas, no Theatro São Pedro, com música de Malher e lança o manifesto Por Um Gesto Honesto, que é uma espécie de pedra fundamental da Companhia Rubens Barbot. Vai para a Oficina, de Salvador, e retorna para o Rio onde se radica.

 

Imagem XXII

1990 – Antiga Escola 15, Quintino, segunda feira, 20 de agosto – 19 horas. Último dia do signo Leão. Primeiro ensaio – Nasce a Companhia Rubens Barbot.

 

Imagens finais

A Companhia Rubens Barbot de Dança Contemporânea, nome com o qual foi criada, foi fundamental para a conscientização de Barbot com o encontro da chamada dança negra.

 

Para Gatto Larsen, foi o encontro com a roteirização e encenação e assim construindo uma dupla criativa com Barbot.

 

A ideia da companhia surgiu com o Rubens Barbot ao finalizar o segundo semestre e depois de ter assistido a tudo que nesse período foi encenado em dança no Rio de Janeiro e tendo a experiência vivida em Porto Alegre. Também tinha assistido a diversos espetáculos de várias capitais na Oficina, de Salvador. Tinha observado que em todas as companhias ou grupos os poucos negros que deles faziam parte do elenco sempre estavam na última fila no palco.

 

Confessou para o então produtor Gatto Larsen: “Quero ter uma companhia de dança contemporânea em que todos sejam bailarinas e bailarinos negros, que todos estejam na primeira fila e todos sejam primeiros bailarinos.”

 

Nesse instante, ideologicamente nascia a Companhia Rubens Barbot de Dança Contemporânea, que faria o primeiro ensaio no dia 20 de agosto de 1990. Data oficial da fundação.

 

As temáticas das criações foram aparecendo cada vez que se idealizava um novo espetáculo, porém desde o primeiro espetáculo (que foi um vômito de ideias) apareceram personagens encontrados nas ruas da cidade. Vendedores ambulantes, violência urbana, grafitis, pregadores de Jesus, relações amorosas, maus-tratos de deficientes, a arte dos travestis, desintegração da sociedade, ao mesmo tempo em que a poesia passeia de bicicleta e com tutu de bailarina, a força da dança afro, o rock violento ensurdecendo, o hip-hop transitando sobre retalhos, sujeira humana e deixando como última imagem os paus de algodão-doce (que era a primeira imagem que atravessava o palco) presos a uma cadeira de rodas. Assim foi Suspeito Silêncio, em 1990, que teve estreia em novembro daquele ano no Teatro Grande Othelo, no bairro de Quintino e em 1991 chegou ao saudoso Teatro Ziembinski, criado e dirigido por Walmor Chagas.

 

Essa foi a estreia que foi delineando sua trajetória sem fórmula. Cada espetáculo, uma surpresa até para os próprios criadores. Talvez a fórmula seja essa, não ter fórmula.

 

Com a estreia de Dança Naná, no Festival Internacional de Corrientes, Argentina, o nome da companhia foi mudado, e passou a se chamar Companhia Rubens & Barbot, isso devido à enorme dedicação e parceria coreográfica do bailarino Rubens Rocha.

 

Assim, o sendeiro da Companhia foi sendo construído, ora com aportes de Robertinho Silva (Toque de Dança – Suíte para Percussão e Corpo – 1996 e Toque Duplo – 1998),  pesquisa urbana sobre os “loucos que moram nas ruas” (Empalha/Dor – 1997), adolescente de rua (Em Pleno Meio-Dia da Nossa Noite – 1998), deboche dos 500 anos da descoberta do Brasil (Outros 500 – 1999), Sebastian Salgado (Não É Mar, Mas É Salgado – 2000), Zózimo Bulbul (Tempo de Espera – 2001), Élvio Assunção (Sankofa – 2002), Orixás (O Reino do Outro Mundo) – 2008/09, cultura popular e a vida profissional de Barbot (40 + 20 – 2010 e Um Rio, de Janeiro a Janeiro), a linguagem da própria companhia (SIGNOS – 2015), artes visuais (Arthur – Ensaio Primeiro – 2017). Dança Naná é o começo do projeto Aniversário 30, em que sua programação com exposição, releituras, estreias, Projeto Memória, livros etc. seguirá até 2021.

 

Para Rubens Barbot, foi a liberdade e o encontro com ele mesmo ao construir sua dança contemporânea negra, fazer os figurinos dos espetáculos se aproximando cada vez mais da negritude que sempre esteve dentro dele e que custou a entender.

 

Para Gatto Larsen, o encontro definitivo com a encenação e familiaridade com os roteiros.

 

Para ambos, a criação de uma dupla criativa nunca antes pensada.

 

Aulas com grandes mestres internacionais, muitas rodas de candomblé, muitos ensaios de escolas de samba, muitos desfiles de carnaval, grandes personagens como destaques, muitas festas nos fundos de quintais da família dele, muitos bailes em clubes, muitos movimentos, gestos e imagens de personagens pesquisados ou encontrados nas ruas, festas, cerimônias do Rio de Janeiro, Buenos Aires, Porto Alegre e Rio Grande (RS). Muita informação cultural, teatro, cinema, literatura, muitos retalhos, muitos e muitos erês, muita música, sambas, jazz, clássicos, sons, barulhos fazem Rubens Barbot que os críticos nacionais ainda não fizeram questão de enxergar.

 

Não é à toa que o crítico alemão Jochem Schmidt escreveu: Dança contemporânea brasileira é o singelo trabalho da Companhia Rubens Barbot.” E a jornalista Marie Christine Vernay, do jornal  Libération, Lyon, França, escreve: Barbot quebra o jogo da cultura e afasta os fantasmas das raízes, reivindicando a ‘farofa’, o amálgama de outras culturas e gestos contemporâneos; é a geração do positivo, inventa uma dança afro internacional, ácida e generosa, e une o batuque ao jogo da ‘bagunça’, construindo um grande espetáculo.”

 

Rio de Janeiro, Terreiro Contemporâneo, junho de 2019.

 

Imagens Extras

 

No dia 3 de fevereiro de 2012, aniversário de Rubens Barbot, no final de um ensaio de Um Rio, de Janeiro a Janeiro, tomando cerveja Rubens Barbot falou para todos que estavam na sala de ensaio:

 

– Agradeço as felicitações e quero comunicar que tomei uma decisão. A partir de hoje não coreografo mais, não danço mais e não falo mais.

 

Passou a supervisionar a Companhia e continuando a desenhar e construir os figurinos.

 

Era a hora de escolher quem seria o coreógrafo.

 

Vários artistas já haviam coreografado para a Companhia. Élvio Assunção (Tempo de Espera). Valeria Monã (O Reino do Outro Mundo), Rubens Rocha foi executor de muitas coreografias, porém ele não gosta de coreografar, então a escolha recaiu em Luiz Monteiro.

 

Várias razões encaminharam Rubens Barbot e Gatto Larsen.

 

Excelente bailarino e como tal muito elegante. Amplo conhecimento da Companhia (fez parte do primeiro elenco, ficando cinco anos) e amplo conhecimento do histórico da dança negra contemporânea.

 

Um estilo pessoal, que perante esse momento da Companhia era necessária uma virada coreográfica.

 

Coreografou Um Rio, de Janeiro a Janeiro Porém, era um espetáculo pensado entre Rubens e Gatto com com o luxuoso auxilia do cineasta Allan Ribeiro, mas o momento em que a criatividade coreográfica do Luiz chegou foi em SIGNOS, no ano de 2015. Fizemos junto roteiro, escalamos o elenco, pesquisamos e montamos a trilha, e conversamos tudo. Luiz Monteiro tinha ‘chegado’ na Companhia Rubens Barbot.

 

Antes tinha coreografado um projeto pessoal: TEMPO, e organizou os movimentos de Nascimento.

 

Como em 2017, organizou os movimentos de ARTHUR – Ensaio Primeiro, quando a companhia se aventurou pelo teatro físico.

 

Essas novas imagens ficam aguardando outros tempos, trabalhos para outras fotografias, agora digitais e a partir do Terreiro Contemporâneo, espaço criado também pela dupla.

 

Rio de Janeiro – Terreiro Contemporâneo – Junho 2019