Companhia de Aruanda e as Danças Negras – Negritude, Resiliência e identidade em Cena | por Rodrigo Nunes

Sobre

O Brasil é a maior nação negra fora do continente africano, nossos ancestrais foram capturados em seus territórios e trazidos para trabalho escravo em solo Brasileiro. A presença negra em nosso país é resultado desta emigração involuntária que promoveu uma dispersão de culturas fazendo com que o continente africano e suas influências sejam até hoje reconhecidos em várias cidades do Brasil. Durante todo o período de escravização dos corpos negros, muitas foram as estratégias e tentativas de apagamento da Identidade e da história desses corpos escravizados, um exemplo que ilustra bem essas inúmeras tentativas de apagamento é a existência da árvore do esquecimento.

 

Ainda em território africano, antes de serem embarcados nos navios negreiros os cativos eram postos em torno da Árvore do Esquecimento: os homens deviam passar nove vezes, e as mulheres, sete. Por que isso? Para que, no trajeto à América, esquecessem-se de sua terra, de suas origens, de sua história, de sua identidade. Cada volta representava a morte das memórias que cada um traz dentro de si desde o útero. Felizmente apesar dessas e outras tentativas mais cruéis de apagamento, a presença negra na formação da Identidade cultural do Brasil é Imensa e inegável.

 

A cultura africana espalhou-se principalmente através de reconhecidas e avançadas tecnologias agrícolas, de extração de minério entre outras relacionadas a processos extrativistas que já eram conhecidos no continente Africano. Geograficamente, sobretudo no que chamamos hoje de continente Americano estas tecnologias de trabalho africanas foram exploradas pelos colonizadores, que perceberam aquelas terras tão ricas em matérias primas quanto às terras do continente africano. Neste sentido, a Música, a dança, a religiosidade se tornaram importantes espaços de sociabilidade e por consequência espaços de preservação, e difusão desses saberes e fazeres ancestrais que através dessas tradições, atravessaram gerações e estão cada vez mais fortes e presentes nos dias de hoje.

 

Um belo exemplo dessa contribuição e influência Negra é o Jongo, tradição que perpassou gerações e que hoje se faz presente na vida e na Arte dos Jovens bailarinos/brincantes da Companhia de Aruanda. O Jongo é hoje reconhecido como patrimônio cultural Imaterial do país, o Ritmo é considerado um dos pais do samba que é uma das maiores contribuições dos negros para a cultura do Brasil que influenciou decisivamente a formação da música popular brasileira.

 

A comunidade da Serrinha, de onde a Companhia de Aruanda surge, fica no Bairro de Madureira, bairro que recebeu no início do século passado, um enorme contingente de negros recém-libertos e seus descendentes. Os moradores desta comunidade, e consequentemente, do bairro, constituíram um núcleo religioso e cultural em potencial, visitado até hoje não só pelos moradores das cidades próximas, como também por jornalistas, artistas e turistas de vários pontos do Estado do Rio, do Brasil e exterior, interessados em cultura e tradições afro-brasileiras. O bairro de Madureira é sede de duas das maiores escolas de samba do Carnaval carioca: o Império Serrano e a Portela, o bairro foi cantado em verso e prosa por diversos intérpretes da MPB, tendo ficado famoso nas vozes de Clara Nunes, Arlindo Cruz e de Paulinho da Viola. Madureira abriga ainda o Mercadão de Madureira grande referência para todo o Estado em produtos específicos da Cultura afro, sendo lugar referência para todos os adeptos das religiões afro-brasileiras.

 

A Companhia de Aruanda tem em sua formação jovens jongueiros da Serrinha que a partir de sua tradição ancestral, o Jongo, resolvem ampliar seu campo de pesquisa e passam a viver e experienciar o universo das Tradições populares, da Interpretação e Dramaturgia ligados ao teatro negro e da Dança Negra como um todo. Indo pesquisar na fonte, junto aos mestres e Mestras da cultura popular do país, e difundindo esses saberes e fazeres junto a crianças, jovens e adultos em seus projetos de arte e educação e Espetáculos artísticos. Um dos principais objetivos da Companhia de Aruanda é difundir e, consequentemente, contribuir para o acesso e a preservação dessas tradições, desses saberes e fazeres da arte Afro-brasileira junto a sociedade como um todo. É nesse Território tão rico e potente que nasce o espetáculo Fuzuezinho, uma demanda antiga vinda dos pais que frequentam e são admiradores do trabalho da Companhia de Aruanda, estes nos demandaram uma versão Infantil de todo o trabalho desenvolvido pela Cia.

 

FUZUEZINHO é um espetáculo educacional e interativo com dança, música ao vivo e contação de histórias que permeiam as Tradições Populares e a temática negra. Ele apresenta um misto das manifestações culturais do Brasil, através de seus ritmos, suas histórias e lendas. Um lindo e lúdico momento, onde crianças, jovens e adultos desvendam um sentimento de alegria e pertencimento à história de todos os brasileiros. Nas apresentações do espetáculo a Companhia apresenta Tradições como o Jongo, o Coco, a Ciranda de Pernambuco, a Ciranda de Tarituba, o Bumba meu Boi, o Samba de roda e o Maracatu de Baque Virado. Em certo momento o público é convidado a subir no palco e a entrar na brincadeira, e o espetáculo se transforma numa grande festa popular onde os dançarinos em constante movimento interagem com o público estimulando sua participação no espetáculo. O resultado reflete o trabalho desenvolvido pela Companhia de Aruanda, desde sua fundação em 2007 de difusão das manifestações populares e de preservação da cultura tradicional, através da dança e interação.

 

Podemos afirmar que a Dança não tem cor, mas o que a dança tem é uma forma de expressar as características e a história de cada povo que dança. Manifestações de Danças Populares, como as citadas acima, e as danças negras em geral, estruturam-se na intersecção entre o jogo, performance e ritual, e têm a função de forjar e fortalecer a identidade de uma comunidade, seja na forma de se relacionar com o sagrado, seja simplesmente, na forma de diversão e entretenimento. Essas manifestações são construções da comunidade para a própria comunidade e são um importante espaço de Luta e preservação de Identidades.