Aqui nesse chão – Fragmento Urbano | por Anelise Mayumi e Douglas Iesus

Sobre

O mundo é formado não apenas pelo que já existe, mas pelo que pode efetivamente existir.
– Milton Santos –

 

O Fragmento Urbano deseja, como quem sonha, ser visto como um grupo que imagina: outros mundos possíveis, uma periferia melhor para quem mora nela, nossa dança a transbordar cada viela. A cada trabalho cênico do grupo tateamos as memórias concretas e as imaginadas, as que me são verdade e as que invento, a cada dia na cena eu sou um segurança da paulista que dança, sou um pastor que dança, um motoboy, uma secretaria que dança. Sou somente um corpo a habitar em relações possíveis. Sou uma juventude periférica que viva, enverga, mas não quebra. Sou um homem negro, que pela afetividade, sobrevive.

 

Na selva de pedra, a gente cresceu sendo o avesso, do avesso, do avesso, do avesso…

 

Do muito de tudo sobre o que gostaríamos de escrever, sentimos que “a gente pode sair da favela, mas a favela não sai da gente”, e que se hoje falar do não lugar, do não espaço, do nada ser está tão em alta nas composições da arte contemporânea hegemônica, nós (do avesso) nunca desejamos tanto falar desses aquis, desses entres, em que nós nos fazemos dança.

 

O cenário é esse, Rio de Janeiro, abertura do Festival EntreDança, Sesc Copacabana, nossa mestra Carmem Luz, curadora do evento, nos convoca a iniciar a mesa de abertura do festival, pensado em diálogo espiralar para uma conversa que gira. Para a fala sobre o Fragmento Urbano, Douglas Iesus que foi chamado junto com Gil GW da GW Cia de Performance, desceram ao palco. André Gracindo, programador do SESC Copacabana, curador e organizador do festival, disse ao nos chamar: gostaria de convidar “Douglas Iesus do Grupo Fragmento Urbano, de Guaianases, Zona Leste periferia de São Paulo”. Aplausos.

 

Talvez, de imediato você nem perceba a importância desta frase para o Fragmento Urbano. São Paulo é um território extenso, cheio de pluralidades históricas e territoriais, pensar território é fundamental em nossa formação como grupo e a gente tinha acabado de colocar Guaianases no mapa da dança de São Paulo, no Rio de Janeiro. Guaianases.

 

“Redundaria dizer que a imagem de São Paulo branca, italiana, imigrante e rica esconde uma realidade complexa, desigual, multicultural e multiétnica. E que, por trás dessa imagem de pujança de ‘locomotiva econômica’, há muita violência, racismo e discriminação. Há também muita arte não catalogada, muito fazer crítico e resiliente”.

(Citando Salloma Salomão Jovino da Silva, do livro da Negras InsUrgências, da Capulanas Cia. De Arte Negra. p. 12, 2018)

 

São Paulo é preta, e ainda mais preta pelo lado Leste (e Sul), gigantescos bolsões de muitos aquis. Aqui deste lado da ponte muito mais grupos do que é possível enumerar tem feito movimento, tem produzido dança, tem resistido a partir das suas criações.

 

E a gente vive a partir da nossa memória, de contar quem a gente é, mas não só. E parafraseando Milton Santos, de contar e dançar quem realmente podemos ser.

 

Guaianases foi primeiro, terra do povo originário Guaianás, depois, da negrada vinda para fazendas e olarias, e em seguida ainda, dos retirantes do norte e nordeste que se instalaram aqui, e ainda agora, dos imigrantes da pele preta vindos de diversos países africanos, do Haiti e da República Dominicana. Todos estes que hoje sobem pelo escadão, descem beirando o muro do trem, andam na mesma condução…

 

Penso no Sol, na luz, lembro que quase ceguei de tanta luz, foi com os olhos semicerrados que vi além.

 

Desde a hora que chegamos foi um corre-corre na casa da Tia Piana. Comprando coisas, preparando o de comer para receber o povo da dança. E vem vizinha e vem família, e vem todo mundo, enche a sala pequena de movimento e cuidado.

 

O cenário era o pátio de um dos prédios do Conjunto Habitacional do bairro Chabilândia, Guaianases, Zona Leste – SP – Brasil. Ao lado, muro a muro, com a FEBEM. O público era quase todo da família, uma família que se reúne pouco desde a partida da Vó Mariana.

 

Tantos olhares emocionados, chorosos, saudosos, orgulhosos…

 

O dançarino que ali se apresenta é cria desse chão. Vê-lo fazer o movimento de ir e voltar… Aquele mutirão criou este menino, entre outros, que os deuses ajudaram a manter vivo e que agora trazia um pedaço do que aquelas pessoas o ensinaram a ser para presenteá-las em retribuição.

 

(Anelise Mayumi, relatório de apresentação – Projeto Encruzilhada: In.Corpor.Ações / 23º Edital de Fomento à Dança, 2019)

 

Há muita negação de onde a gente vem, já estamos até meio cansados de repetir que não tem escola, não tem hospital, não tem saneamento. B.Á.S.I.C.O. Então, a que(m) me serve ser não? Ser ausente? Invisível? Habitar o vazio? Nada ser?

 

“Eu me sinto às vezes meio pá, inseguro/ Que nem um vira-lata sem fé no futuro/ Vem alguém lá, quem é quem, quem será meu bom?” (Do Rap V.L. – Racionais MC’s, 2002).

 

Na humildade, às vezes ainda bate aquela insegurança da gente não ser porra nenhuma. E fundamentamos nossos trabalhos, cavamos para abrir os buracos de onde jorram teóricos negrxs e ameríndios, suamos embebidos com as minúcias estéticas e poéticas das nossas criações, cada gesto respaldado numa pesquisa, cada olhar deglutido em discussões infinitas, coletividades se reunindo para pensar seus fazeres… E, na moral, tamo cansado de ver a hegemonia arrotar pretexto para seus dispositivos autorais em gatilhos de processo de criação: Comer junto? Ser nada? Andar em bando? Percorrer distâncias? Qual a inovação nisso cara pálida? Pois é, não devemos, nem precisamos e nem queremos esperar a mudança vir daí. É daqui.

 

“[…] a comodificação contemporânea da cultura negra pelos brancos de modo algum desafiam a supremacia branca quando transformam a negritude no ‘tempero capaz de tornar a merda sem graça que é a cultura branca dominante algo mais empolgante’” (Citando Bell Hooks em “Olhares negros: raça e representação”).

 

A vida continua sendo arrancada da gente, tomada a força, a terra, o terreiro, o território. Por isso ser, por isso existir, por isso nos é tão importante afirmar quem somos, de onde viemos e lutamos diariamente para que interrompam essa progressão ideológica racista que nos elimina de nós e nos toma de assalto para o nada ser deles.

 

Daqui eu vejo uma pá de grupo produzindo e criando, aqui de Guaianases, aqui do Itaim Paulista, aqui do Jardim Robru, aqui do Pantanal, aqui da Urutu, aqui do Jardim Nordeste, aqui de Ermelino Matarazzo, aqui da Cidade Tiradentes, aqui do Sapopemba. Um salve aos nossos parceiros de luta e caminhada que dançam, tocam, ocupam, resistem, existem e nos fazem ser: salve Batakerê, Espaço Cultural Adebankê, Pretas Bàs, Núcleo Ximbra, Zumb.boys, Coletivo Calcâneos, Núcleo IÊÊ, Coletivo Válvula, Coletivo Corpo Aberto, Cia. Crioulos, Cia In.forma, Ca.Ja, Corpórea Cia de Corpos, Ocupação Cultural Mateus Santos, Periferia Invisível, Okupação Coragem, Jongo dos Guaianas. Um salve as cias pretas de SP e suas corporalidades plurais: Cia Sansacroma, Nave Gris, Vênus Negra, Gumboot Dance, Zona Agbara, Treme Terra, Ouvindo Passos, Pé no Mundo, e tantas outras que individual ou coletivamente borbulham inquietas nessa essypê vida louca.

 

Houve muita resistência, mas também muita desistência. Manter-se em atividade, criando, produzindo, circulando, alimentando as bocas que são família, não é ofício simples. Não tá fácil, nem nunca foi… Muitos grupos e artistas retornaram para água placentária de Nanã, retornam a terra em lama fértil que em breve rebrota noutros movimentos. Nós que aqui estamos, ainda, nos damos o direito de pensar (e sonhar): E onde mais queremos estar? Poderemos estar? Que outros não lugares me foram negados antes mesmo de eu ser território? E quando abrirmos mais esta porta, quem mais traremos conosco?

 

Nos disse uma vez mestre Dinho Nascimento “Eu não vou perder tempo falando carochinha com tanta luta por fazer”, pois é… se o palco é o palco e o chão é o chão, na luta diária das nossas danças nos encontraremos nas encruzilhadas, nos fortaleceremos pela vida ativa do outro, na rua, no chão, no palco, aqui, exatamente aqui onde queremos. E na luta, que nos é caminho.

 

Em nossa passagem pelo Rio de Janeiro, pudemos dançar nos lugares do aqui, Parque Madureira, Nova Iguaçu, Sesc Ramos, Complexo do Alemão, Roda Cultural de Olaria. Salve ao Jongo da Serrinha, ao Jongo do Pinheiral, a Cia de Aruanda, salve Carmem Luz, salve todxs xs artistas e organizadorexs do EntreDança: Corpos Negros, por nos juntarem aqui.

 

Guaianases, Zona Leste – São Paulo/Brasil.