À Margem | por Tiago Oliveira

Sobre

O convite para fazer parte do evento Sesc EntreDança 2019 com o foco no corpo negro me despertou, mais uma vez, a vontade de ter uma fala política na vestimenta da arte. Sendo assim, o processo de pensar o espetáculo À Margem surgiu a partir da ideia de retomar as memórias, que faziam parte das intercorrências do racismo de três artistas negros e de três modalidades artísticas distintas. Convidei Fabiana Nunes, que elaborou a direção dramatúrgica junto comigo, para me ajudar a na construção deste espetáculo.

 

Achamos muito pertinente o atravessamento dessas memórias que foi inevitável ao longo do processo. Primeiro, eu e Fabiana tivemos longas conversas sobre como eu [homem negro] via e sentia o racismo e de como ela [mulher branca] presenciava o racismo. Todos os episódios racistas atuais vindos de noticiários, mesmo sendo com terceiros, como por exemplo o episódio do menino que morreu sufocado pelo segurança do supermercado Extra, eu trazia para as conversas. Quando ficou claro, para mim, a maneira que eu queria abordar o preconceito. Conversamos também com o produtor Thiago Piquet [homem branco], a fim de ouvir sua opinião sobre o roteiro proposto e receber seus apontamentos para, então, seguimos no planejado.

 

Convidamos então o bailarino Bruno Duarte [homem negro] para tomarmos um café e passamos um bom período conversando sobre o tema. Nessa conversa os atravessamentos já se faziam presentes. Enquanto eu e Bruno conversávamos abrindo nossas experiências e impressões sobre o preconceito racial, Fabiana anotava palavras que surgiam na conversa e que eram munidas de significados para usarmos depois no processo de criação. Bruno é um bailarino de Krump, uma modalidade de danças urbanas, uma dança bastante expressiva e de movimentos livres. Nosso intuito em trabalhar com artistas de outras linguagens, outras características, aproximando da dança contemporânea, era que o atravessamento acontecesse não só com as memórias e experiências, mas também com as linguagens corporais e no modo como cada arte se expressa.

 

Um ponto retórico em nossas conversas foi o status que homem negro ocupa na sociedade – uma cultura onde as maiores oportunidades estão para os homens heterossexuais, ricos e de pele branca. Nesse momento, a palavra representatividade se fez essencial. O desafio era falar sobre situações duras, mas com intuito de mostrá-las, apenas para dizer que o racismo é real e ainda existe. Com isso, através da arte, objetivamos gerar uma semente de conscientização. Para nós, À Margem deveria usar o palco do Sesc Copacabana para ser o lugar de mostrar o que ainda há de racismo presente estruturalmente em nossa sociedade.

 

Quando os ensaios coreográficos foram iniciados – primeiro com o Bruno e ainda sem o Jhonatta [homem negro, DJ e produtor musical] – a ideia de desenvolver as memórias já se fazia presente em minha cabeça, não só como movimento, mas também de trazê-las em imagens corporais do cotidiano. E foi a partir disso que se deu a minha primeira condução para iniciarmos o processo de criação. Eu e o Bruno produzíamos material coreográfico a partir desses estímulos e em todos os ensaios a Fabiana estava presente, sendo que nesses momentos apenas observando e pontuando reflexões de dramaturgia corporal e da cena. Após os ensaios, eu e Fabiana alinhávamos as nossas impressões sobre o que tinha sido produzido e isso acabava dando estímulos para dar um rumo ao próximo ensaio.

 

Ainda antes do Jhonatta vir de Belo Horizonte (MG) para o Rio, eu e Fabiana fizemos o mesmo processo que fizemos com o Bruno com ele, dessa vez por meio digital, internet. Produzíamos material coreográfico, mandávamos por vídeo para o Jhonatta e ele elaborava o seu depoimento musical, aliado às próprias memórias e aos atravessamentos do que via de nossas coreografias. Tanto o processo coreográfico quanto o processo dramatúrgico, foram nascendo de maneira bem espontânea. Falar sobre o tema é tão intrínseco em nossos corpos e nossas memórias, que tudo foi surgindo de maneira bem fluida e natural. A partir do que falávamos e produzíamos, Fabiana alinhavava e propunha intenções de movimento para um caminho dramatúrgico. Em vários ensaios, todos os envolvidos traziam estímulos para fomentar uma atmosfera para o desenvolvimento da criação, como fotos e vídeos de expoentes ativistas da cena negra.

 

Assim, nossas memórias individuais vinham à tona criando um ambiente propício que colocávamos no corpo. Tanto para mim, como para Fabiana, não interessava nenhuma narrativa cronológica, mas situações que se faziam presentes. A única escolha que tomamos, foi para a linha dramatúrgica do espetáculo que teriam duas partes: A primeira que abordavam as memórias pesadas, mostrando cenas cotidianas de preconceito e “pejorativação” do negro; E a segunda parte as memórias boas, as de pertencimento, de representação do negro em ambiente onde não há discriminação. Sendo que, entre a primeira e a segunda parte, criei um intermezzo onde trago a imagem do “preto velho” a quem peço licença, humildemente, não só à entidade, como também a todos os antepassados que morreram lutando, para que hoje nós [negros] assumíssemos esse lugar no palco.

 

Mesmo essas memórias boas finalizando o espetáculo, de uma maneira sutil, a nossa voz permaneceu dizendo que o racismo ainda existe e que estamos lutando através da arte. Isso veio do contraponto musical do Jhonatta e das marcas existentes em nossos corpos. Jhonatta foi uma presença muito valiosa no trabalho, seu potente depoimento musical foi estendido para o corpo e a fala. Na primeira parte, o espetáculo abre com um desfile que tem o intuito de trazer a ideia do mercado de escravos, que de uma certa maneira vive até hoje numa forma de tratar o corpo negro como objeto de desejo ou marginalizá-lo. Nessa cena, Jonatta assume o papel de apresentar eu e o Bruno sempre num tom irônico e com duplo sentindo para as nossas “serventias” quando tinha 12 anos de idade, que foi quando ele “sentiu na pele” o significado de ser negro.

 

O estímulo artístico para todos os envolvidos foi muito enriquecedor. A ideia era fortalecer cada vez mais a dramaturgia do corpo e da cena e conceito da obra, para podermos ficar livres em nossos atravessamentos coreográficos. Não nos prendíamos às ferramentas da dança contemporânea na coreografia, simplesmente deixávamos as nossas experiências impregnadas em nossos corpos agirem. A mistura da técnica contemporânea com o Krump, acabou nos trazendo para um lugar de mescla desses dois estilos, e dentro disso, Fabiana nos instigava a enxergar essa coreografia em um corpo do cotidiano. Por exemplo, na segunda parte trouxemos as memórias de brincadeira da infância e de bailes de funk e da musica black. O exercício era trazer esse gingado para ressignificar os passos coreografados. Para o Jonatta, a ideia era simplesmente trazê-lo para cena no seu próprio estilo de performance. Fabiana ao longo do processo trazia jogos corporais para vivenciarmos as lembranças através do corpo.

 

A relação de criação com Jhonatta foi muito interessante. Após ele imergir na ideia do trabalho, a criação musical vinha encharcada de significados. Ele estava sempre trazendo para as camadas sonoras, falas com textos bem contundentes sobre a pele negra. Os outros artistas [figurinista – Su Tonani; Cenário – Pedro Flutt; Luz – Vilmar Olos], acompanharam a ideia das relações que se atravessam. Para o cenário, vale a pena ressaltar que Pedro se juntou a nós três dias antes do espetáculo. Su, sugeriu a entrada de Flutt para complementar a estética do figurino. Pelo pouco tempo, deixamos acertado que para esse momento o cenário entraria se não “brigasse” com todo o contexto. Fabiana participou de uma conversa com o Pedro munindo-o de todo o processo que havíamos passado. Fabiana e Pedro, chegaram a ideia de cordas, pois a imagem transitava num aspeto de vísceras, cordão umbilical, da trança, de uma imagem de entrelaçar, a corda tem em sua textura o cru, à amostra. Pedro após esse processo, trouxe a ideia das cordas nos tons das paletas da cor vermelha, pois assim levava para uma estética mais contemporânea que era o que queríamos. Resolveu entrelaçar os objetos cênicos, como: duas cadeiras e uma mesa de acrílico usada para o equipamento do DJ [Jhonatta], garimpada no próprio Sesc.

 

A luz foi elaborada por Vilmar Oslo, que também foi alimentado pelo Thiago Piquet que, além de nosso produtor, é a pessoa que opera a luz e por Fabiana. Fabiana e Piquet sugeriram imagens, como: farol do veículo de polícia, um lugar mais de ambientação do que propriamente uma iluminação para teatro. O figurino, Fabiana também ficou de elaborar com a Su. A ideia era uma estética urbana atual. Após a Su participar de alguns ensaios, ela propôs os figurinos a partir da personalidade e particularidade de cada corpo dos intérpretes. Para um dos meus figurinos, em específico a minha camisa da segunda parte da obra, Su pensou numa camisa social branca e que seria desenhada por uma artista plástica, Jú Barbosa, também de pele negra. Isso fez com que suas pinturas trouxessem toda uma força nesse lastro cultural que dialogou com o propósito do espetáculo.

 

Depois de tudo pronto e já no espaço cênico, a maior preocupação era que o começo e o final do espetáculo não tivessem um cunho de espetáculo, digo, formalizar essas partes, pois achamos que essa característica não fazia parte da dramaturgia que queríamos. E então surgiu À MARGEM, esse espetáculo que reúne artistas negros que apresentam discursos diferenciados, a partir de suas vivências e que inevitavelmente se atravessam nas características diaspóricas e que se complementam em defesa de exigir respeito ao corpo negro.

 

Tiago Oliveira